A data do nascimento de Jesus é um mistério que pode ter ocorrido em diferentes épocas, como 13 de abril, 14 de outubro ou 3 de julho. Se não fosse por um erro de cálculo do monge medieval encarregado de definir essa data, poderíamos estar vivendo alguns anos à frente agora. A verdade é que não é possível determinar com precisão quando Jesus de Nazaré nasceu.
A única base que os historiadores dispõem para reconstruir a vida de Jesus são os evangelhos, que foram redigidos décadas após sua morte por autores que não o conheceram pessoalmente, atuando como defensores da fé cristã. Essas narrativas são, portanto, relatos de segunda, terceira ou até quinta mão, focando mais na morte e ressurreição de Jesus do que em seu nascimento.
Entretanto, os textos dos evangelistas oferecem algumas pistas que ajudam a situar Jesus, cuja existência é amplamente reconhecida pelos pesquisadores, em um contexto histórico específico.
As principais referências são os Evangelhos de Mateus e Lucas, escritos por volta de 80 a 90 d.C., conforme explica o historiador espanhol Javier Alonso à BBC News Mundo. Enquanto os textos mais antigos do Novo Testamento, como o Evangelho de Marcos e as cartas autênticas do Apóstolo Paulo, não mencionam a juventude de Jesus, Mateus e Lucas trazem o que se conhece como “relatos da infância” de Jesus.
Contudo, há uma incompatibilidade cronológica entre eles. Marcos indica que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, pouco antes de sua morte. Como sabemos que Herodes faleceu em 4 a.C., Mateus sugere que Jesus nasceu em 4, 5, 6 ou 7 a.C. Os autores podem ter percebido a contradição de que Jesus teria nascido anos antes de Cristo, mas esse é um detalhe que ainda precisa de mais investigação.
Lucas, por outro lado, não menciona Herodes, mas relaciona o nascimento de Jesus ao censo de Quirino, afirmando que Maria e José, seus pais, viajaram da Galileia a Belém para registro. O evangelista refere-se ao censo promovido por Públio Sulpício Quirino, governador romano da Síria, que inclui a Judeia, e que ocorreu em 6 d.C. Assim, há uma diferença de pelo menos dez anos entre as narrativas de Mateus e Lucas, conforme argumenta Alonso.
Além disso, há a possibilidade de que os capítulos referentes ao nascimento de Jesus tenham sido adicionados aos evangelhos já em circulação, segundo Antonio Piñero, professor emérito de Filologia Grega da Universidade Complutense de Madrid. Isso sugere que os relatos foram escritos mais de 60 anos após a morte de Jesus, quando a comunidade cristã já contava com cerca de 3 mil fiéis.
Diante disso, qual relato é mais próximo da realidade, o de Mateus ou o de Lucas? Historiadores analisaram as âncoras históricas presentes nos Evangelhos, especialmente a figura de Pôncio Pilatos, que governou de 26 a 36 d.C. e sobre o qual se sabe que Jesus foi crucificado. Se seguirmos Mateus e considerarmos que Jesus nasceu em 4 a.C., a cronologia faz sentido. No entanto, a narrativa de Lucas não se encaixa bem nesse contexto.
Por isso, muitos historiadores, incluindo Alonso, tendem a favorecer a versão de Mateus, sugerindo que Jesus nasceu aproximadamente em 4 a.C., nos últimos anos de Herodes. A menção ao censo de Quirino parece ser mais um artifício literário de Lucas para justificar a viagem a Belém, local de nascimento do messias, conforme a profecia de Miquéias.
Infelizmente, não existem outras fontes documentais que registrem a vida de Jesus. Flavio Josefo, um historiador judeu-romano do século I, menciona Jesus em sua obra “História dos Judeus”, escrita por volta de 95 d.C., mas não fala sobre seu nascimento. Como Piñero explica, enquanto o dia de nascimento de um imperador poderia ser conhecido, o de um pregador galileu não seria registrado.
Os primeiros cristãos não se mostraram interessados na infância de Jesus. A mensagem central era a iminente chegada do Reino de Deus, e não havia motivo para recordar detalhes da vida do profeta. No entanto, com a morte dos contemporâneos de Jesus e a percepção de que o Reino não chegava, surgiu a necessidade de documentar a vida de Jesus para as futuras gerações.
O foco estava na sua morte e ressurreição, que era visto como a vitória sobre a morte. À medida que a popularidade de Jesus crescia, a biografia começou a ser elaborada retroativamente, com os textos mais antigos abordando sua morte e ressurreição, seguidos da sua vida pública, e os relatos de seu nascimento surgindo apenas posteriormente.
E onde se origina a data do ano 1? Aqui entra em cena o monge bizantino do século V, Dionísio, o Magro. Ele foi encarregado pelo Papa, por volta de 497, de determinar a data da Páscoa, e, ao fazê-lo, acabou por calcular o nascimento de Jesus como 754 anos após a fundação de Roma, atribuindo ao ano 1 a data errônea do nascimento.
Na época, a contagem de anos se baseava em eventos locais, como o reinado de imperadores ou a fundação de cidades. Quanto ao dia 25 de dezembro, essa data foi estabelecida antes de Dionísio, como uma “invenção cristã”. O imperador Teodósio Magno, após 380 d.C., consolidou o cristianismo como a religião oficial e buscou integrar festividades pagãs, como o festival do “sol invicto”, que celebrava o solstício de inverno.
Os romanos comemoravam essa data como o dia em que o sol começava a vencer a escuridão. A cristianização dessa festividade fez com que o nascimento de Jesus fosse associado ao dia 25 de dezembro, que também coincidia com a Saturnália, uma festa dedicada ao deus Saturno, repleta de tradições que se assemelham às atuais celebrações natalinas.
Assim, a partir do século IV, a celebração do nascimento de Jesus começou a ganhar importância. A arte cristã, como as imagens encontradas na igreja de San Vitale em Ravenna, do século VI, indica que episódios relacionados ao nascimento foram sendo valorizados.
Embora a data que celebramos não corresponda necessariamente ao nascimento real de Jesus, algumas informações históricas podem ser consideradas. Piñero aponta que, apesar das diferenças nos relatos de Mateus e Lucas, podemos supor que ambos concordam em que Maria e José eram os nomes dos pais de Jesus, que ele pertencia a uma família religiosa e que era galileu. No entanto, Alonso acredita que essas narrativas têm um tom quase mitológico.
*Este artigo foi publicado originalmente em 25 de dezembro de 2022.*