“O que está por vir já está se manifestando”, assim se expressa Ana Estaregui em sua obra “Fazer círculos com mãos de ave”, que foi lançada em novembro deste ano. Com quase cem poemas, a autora busca revelar a beleza que ainda persiste no mundo, desde os rastros deixados pelos animais até a presença do corpo que adentra espaços vazios, além das imagens que brotam nas paisagens.
Sua escrita flui em sintonia com aqueles que dirigem seu olhar à natureza em busca de novas formas de linguagem. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Ana mencionou o exercício de manipular a realidade, navegando entre a natureza e a cultura.
“É presunçoso pensar que somos os únicos capazes de linguagem e inteligência. Mas será que as plantas se comunicam? O que elas têm a nos dizer? A inteligência se manifesta de diversas maneiras, e não apenas por meio da fala”, comentou.
Ela propõe, assim, uma nova forma de experimentar o uso das palavras, semelhante ao que tem sido feito por Marília Garcia, que discute a poesia, a escrita e a ideia de pensar com as mãos. E não é apenas Garcia; outros poetas que compõem a cena contemporânea também trilham esse caminho.
De certa forma, a coletânea de Estaregui, incluindo o lançamento pela Editora 34, se une à rica produção poética que vem se destacando no cenário editorial brasileiro.
Em tempos de crises, desastres e crimes ambientais, Ana Estaregui cultiva uma visão esperançosa, como se ecoasse a reflexão de um filósofo que já afirmou: “o velho mundo está se desmoronando, e o novo ainda está por vir”. Mas ele vem.
E é de modo sereno, sem pressa, semelhante à forma como se responde a perguntas, que Estaregui parece construir sua poesia. Durante a conversa, revelou que sua escrita leva tempo para se desenvolver. Às vezes, ao iniciar, não tem clareza sobre o destino que tomará. É nas jornadas que se descobre.
Esse processo a guia rumo às respostas. “Talvez estejamos sempre escrevendo sobre os mesmos temas, em busca de um só poema”, reflete em um dos primeiros textos do livro.
Sua escrita surge de uma escuta atenta a outras linguagens, e com firmeza, compartilha seu desejo e curiosidade em ouvir novas vozes. Pensar à margem — quem sabe até pela terceira margem do rio, evocando Guimarães Rosa. Somos formados pelo que percebemos.
Há também um contínuo processo de montagem e desmontagem na escrita. Distante da visão idealizada do poeta inspirado, ela se posiciona como uma artista construtora.
Estaregui é uma poeta que estuda as palavras, observando o mundo com uma lupa. Sua escrita é fruto da experimentação, das emoções que a atravessam. Ao escrever, busca compreender a essência das palavras e as relações ocultas entre as coisas.
“Vejo a poesia como uma maneira de acessar a linguagem de uma forma diferente. Roland Barthes fala dessa linguagem que escapa ao poder. A poesia permite que se manipule a realidade de um jeito único”, explicou.
“Acredito que, ao nomear as coisas, ampliamos nosso mundo. Quando lemos um poema que nos oferece uma nova perspectiva, começamos a perceber o mundo de maneira diferente”, completou.
Assim, Estaregui expressa que suas mãos pensam em detalhes, ajustando a audição para ouvir melhor, e que seu ato de criar serve para depurar a visão que se tem.
“Escrever sobre a nuvem na página ajuda a perceber melhor a nuvem no céu”, diz em um de seus poemas, enquanto outro retrata o corpo de uma baleia flutuante que se transforma em uma ilha no oceano, alimento para animais e aves marinhas, abrigo para tartarugas. Até que, finalmente, funda abaixo de si uma cidade branca quando seus ossos se dissolvem por completo.
“A morte pode ser isso, o ato de se espalhar em mil partes, tornar-se alimento para aves, aprender a cantar”.
Livro “Fazer círculos com mãos de ave”
Preço: R$ 57,00
Onde adquirir: Editora 34
O lançamento da Editora 34 apresenta 97 poemas repletos de beleza e singularidade.