“Não é por acaso que meu Victor é Oscar Isaac Hernández”, afirmava Guillermo del Toro ao ator guatemalteco-americano sempre que Isaac expressava insegurança durante as filmagens de “Frankenstein”, um projeto que o cineasta mexicano almejava realizar desde a infância e que agora representa um marco significativo em sua trajetória.
A escolha do México como local para a última etapa de divulgação desse épico não foi meramente simbólica. A campanha, que começou no Festival de Veneza em setembro, culminou com a estreia do filme tanto nos cinemas quanto na Netflix, e o país recebeu uma das últimas grandes exibições do longa, que tem Isaac e Jacob Elordi no elenco, sendo este último responsável por interpretar a Criatura.
A data da exibição, 3 de novembro, foi deliberadamente escolhida para coincidir com a celebração do Dia de los Muertos, um dos maiores eventos culturais do México. O Antiguo Colégio de San Ildefonso, com sua impressionante arquitetura barroca, foi o cenário da projeção. No dia seguinte à festa, a capital ainda estava adornada com altares vibrantes, e a recepção do público a “Frankenstein” foi tão entusiástica que superou até mesmo o apoio à seleção nacional de futebol.
O contraste entre o barroco mexicano e os elementos da celebração, como as Catrinas, que combinam beleza e escuridão, reflete a dualidade presente no filme. Del Toro destaca que a atmosfera gótica, a relação complexa entre vida e morte, e o amor intenso e melancólico entre Elizabeth (Mia Goth) e a Criatura (Elordi) são profundamente conectados à rica cultura latina.
A abordagem latina em relação à morte não apenas influenciou o filme, mas também o enriqueceu. A sensibilidade da literatura romântica inglesa encontra um eco na intensa visão latina sobre a morte. Del Toro observa que os romances góticos frequentemente se situavam em países como Espanha e Itália, conhecidos por suas culturas vibrantes e apaixonadas.
É inegável que cada diretor imprime suas experiências e seu contexto nas reinterpretações de obras clássicas. O “Frankenstein” de del Toro enfatiza questões sobre o desejo de poder, os horrores da guerra e os dilemas éticos das inovações científicas. À medida que a inteligência artificial avança, surgem perguntas sobre a criação de seres digitais ou robóticos que busquem conexão, amor ou que possam experimentar sentimentos de abandono e raiva.
A paixão de Guillermo pelo cinema começou cedo. Ele tinha apenas sete anos quando assistiu à adaptação de 1931, protagonizada por Boris Karloff. Crescido em uma família católica em Guadalajara, ele se apaixonou pela narrativa, reconhecendo-se em seu próprio anseio de criar. Anos depois, ao ler o livro de Mary Shelley, percebeu as diferenças em relação à versão cinematográfica que o fascinou e decidiu: “Eu vou filmar essa história”.
Passaram-se cinco décadas para que o menino sonhador de Guadalajara se consolidasse em uma indústria repleta de altos e baixos. Desde seu primeiro longa, “Cronos” (1992), até sua migração para Hollywood após o sequestro de seu pai, Guillermo sempre fez escolhas que refletiam sua identidade. Com “O Labirinto do Fauno” (2006), ele se estabeleceu como um dos grandes mestres do cinema contemporâneo, criando universos que são ao mesmo tempo lúdicos e sombrios.
Durante a estreia mundial de “Frankenstein” em Veneza, del Toro ressaltou a conexão entre as narrativas de horror e as parábolas bíblicas. Ele acredita que o horror, assim como as fábulas, pode oferecer uma forma de cura ao permitir a exploração de temas profundos e universais.
Se o Fauno foi seu primeiro grande monstro, novas criações o seguiram, culminando em “A Forma da Água”, que conquistou quatro Oscars. Assim, Guillermo finalmente concretizou seu sonho de infância, trazendo uma versão de “Frankenstein” que reflete sua herança latina, mesmo que sutilmente, como evidenciado pelos detalhes visuais e narrativos que permeiam a obra.
A dinâmica entre criador e criatura, pai e filho, brutalidade e sensibilidade é central na narrativa. O personagem Victor é moldado por sua relação conturbada com seu pai, Leopold (Charles Dance), um aristocrata que impõe uma severidade extrema. A morte de sua mãe desencadeia a revolta de Victor, que se torna obcecado pela busca de criar um ser perfeito.
Del Toro também se destaca pela forma como orquestra cada elemento visual do filme, desde a produção até o figurino e a fotografia. Ele se recusa a depender excessivamente de efeitos especiais, optando por uma abordagem artesanal que eleva “Frankenstein” a uma experiência cinematográfica singular.
O laboratório de Victor, que mais parece um palco de rock, é uma representação da excelência visual que caracteriza o filme. Isaac encarna um Victor que oscila entre a genialidade e a loucura, enquanto Jacob Elordi, como a Criatura, traz uma vulnerabilidade tocante que desafia as convenções.
Dividido em atos, o segundo, que revela a perspectiva da Criatura, é especialmente impactante. Del Toro se aprofunda na fábula, apresentando um espetáculo visual que combina elementos de ópera rock com uma sensibilidade romântica. O desempenho de Elordi se destaca, solidificando-o como um ator capaz de transmitir uma profunda introspecção e explosões emocionais.
Em suma, “Frankenstein” de del Toro pode surpreender os espectadores que esperam um terror convencional, mas certamente encantará aqueles dispostos a se imergir em um mundo vibrante e repleto de emoções, cor e complexidade.
“Meu desejo é que este filme seja visto nos cinemas, mas o fundamental são as ideias. Que nunca deixemos que as ideias se tornem pequenas e que sempre possamos criar um cinema grandioso, que transporte o público e honre o trabalho árduo de todos os envolvidos”, conclui Guillermo del Toro.
*A colunista teve a oportunidade de viajar ao México a convite da Netflix Brasil.*