O primeiro episódio da 27ª temporada de South Park não poupou críticas a Donald Trump e à Paramount, que recentemente firmou um acordo bilionário com o estúdio da animação. Os ataques incisivos refletem supostas influências do presidente sobre a mídia, uma possível fusão e conflitos internos entre os criadores do programa e o conglomerado de entretenimento.
Como Trump é retratado no novo episódio de South Park? Ao contrário de outros personagens famosos, sua presença é simbolizada por uma imagem do presidente sobre um corpo animado. Enquanto outras celebridades são desenhadas de forma caricatural, Trump aparece com um micropênis em uma cena onde tenta seduzir o diabo. Em um diálogo provocativo, o diabo recusa suas investidas, ao que Trump insiste: “Vamos lá, sei que você não consegue resistir a isso!”. O diabo responde: “Eu mal consigo ver, é pequeno demais”. Essa referência remete a um filme de 1999 da franquia, onde Satanás é descrito como tendo um romance com Saddam Hussein, que é mencionado como um “ex-namorado que lembra Trump”.
Um clipe gerado por inteligência artificial, também mostrando Trump com um micropênis, é exibido no final do episódio e está disponível no canal oficial da animação no YouTube. Além disso, quando questionado sobre a lista de Epstein, Trump tenta desviar a conversa, com o diabo dizendo: “É curioso que sempre que falam disso, você pede para todos relaxarem”. A forma como Trump se distancia do escândalo, que envolve um bilionário amigo, tem gerado tensões entre seus apoiadores.
O enredo ainda critica a Paramount, abordando o cancelamento do “politicamente correto”. Cartman, insatisfeito com o fim de seu “programa militante favorito”, lamenta a normalização de comportamentos racistas, xenofóbicos e homofóbicos na sociedade. Em paralelo, Jesus Cristo se junta aos protagonistas na escola, levando os pais a se revoltarem contra Trump, que responde com uma ameaça de indenização de 5 bilhões de dólares. A situação se complica quando a confusão é coberta pelo programa “60 Minutes”, onde os apresentadores, nervosos, afirmam que “o presidente é um homem maravilhoso” e “provavelmente está assistindo”.
Jesus sugere que os pais façam um acordo com Trump, afirmando: “Eu não queria voltar e vir para essa escola, mas precisei por conta do acordo com a Paramount”. No clímax, os pais concordam em pagar 3,5 milhões de dólares e veicular uma “propaganda pró-Trump”, que apresenta o polêmico vídeo de IA. O comercial termina com a frase: “O pênis dele é pequeno, mas seu amor por nós é imenso”.
Essa situação remete a um recente acordo entre Trump e a CBS, da qual a Paramount é proprietária. A Paramount concordou em desembolsar 16 milhões de dólares a uma causa apoiada por Trump, após o presidente acusar um programa de “interferência nas eleições”. O desentendimento surgiu a partir da edição de uma entrevista com Kamala Harris no “60 Minutes”. Stephen Colbert, que criticou o acordo em seu programa, teve sua atração cancelada dias depois, gerando revolta entre outros apresentadores de “late night”.
A relação entre o acordo e a demissão de Colbert é vista por críticos como uma capitulação da Paramount a Trump, que está buscando aprovação governamental para uma fusão avaliada em 8,4 bilhões de dólares com a Skydance, controlada pelo filho de um aliado de Trump. Os criadores de South Park expressaram descontentamento com a fusão, afirmando que ela prejudica a série e que estão trabalhando em novos episódios, embora a estreia tenha sido adiada por duas semanas.
No dia da exibição do episódio provocativo, o estúdio e a Paramount assinaram um contrato de exclusividade de 1,5 bilhão de dólares para a produção de mais 50 episódios nos próximos cinco anos. Este novo episódio, repleto de críticas, é interpretado como uma ousada provocação dos criadores tanto a Trump quanto à Paramount, que poderá enfrentar desafios ao equilibrar seu contrato com a animação e a fusão, que depende da aprovação de um órgão regulatório.