“Cortina de Fumaça” (“Smoke”, no original) é uma produção que desafia as aparências. À primeira vista, pode soar como mais uma série policial, onde um enigma precisa ser desvendado por uma dupla de investigadores que começa com desavenças, mas que, ao longo da trama, aprende a se respeitar e se torna parceira. No entanto, essa previsibilidade é apenas a superfície da história.
O responsável pela criação da série é Dennis Lehane, um renomado escritor e roteirista conhecido por obras como “Sobre Meninos e Lobos” e pela série “Black Bird”, estrelada por Taron Egerton. A colaboração entre Lehane e Egerton se repete nesta nova produção da AppleTV+, onde Egerton interpreta Dave Gudsen, um ex-bombeiro que se transforma em especialista em incêndios criminosos. Sua missão é desmascarar não apenas um, mas dois incendiários que ameaçam a fictícia cidade de Umberland.
Ao lado dele está a policial Michelle Calderone (Jurnee Smollett), uma personagem brilhante e multifacetada, que foi escolhida para a missão pelo chefe Steven Burk (Rafe Spall), com quem teve um relacionamento complicado. Quando Burk decide deixar sua esposa para ficar com Michelle, ela opta por encerrar o romance, o que resulta em uma punição disfarçada.
A vida de Dave parece tranquila; ele vive com sua esposa Ashley (Hannah Anderson) e seu enteado Emmett (Luke Roessler), sendo um pai dedicado. Entretanto, entre as investigações, ele aspira a se tornar escritor, buscando uma nova forma de contar suas histórias e gerar uma renda adicional.
Embora a cidade seja fictícia, a narrativa da série é inspirada em eventos reais, especificamente no podcast “Firebug” da Truth Media. A trama, elaborada por Lehane, também como produtor executivo, investiga até onde cada personagem está disposto a se sacrificar por suas ambições, obsessões e papéis sociais.
A metáfora do fogo é recorrente, simbolizando os riscos de se aproximar demais de suas aspirações, lembrando o mito de Ícaro. A série explora os limites pessoais de cada um, revelando como muitas vezes usamos máscaras sociais que nos aprisionam. Dave, um homem ético que deseja ser um herói, se vê preso a uma “masculinidade performática” que o impede de ser verdadeiramente ele mesmo.
Em uma entrevista, Egerton destacou que a escrita de Lehane não apresenta heróis ou vilões, mas personagens complexos. Dave, que anseia ser visto como o “bom moço”, se vê em conflito entre sua imagem e sua verdadeira natureza. O abismo entre o que ele quer ser e o que realmente é é o que torna “Cortina de Fumaça” tão intrigante. Sua “performance social” o consome a tal ponto que ele não sabe mais se está atuando para os outros ou para si mesmo.
Egerton também reflete sobre a ideia de masculinidade performática, comentando que muitos homens, historicamente, têm medo de mostrar vulnerabilidade, um tema que ainda ressoa em várias culturas.
Quanto à estrutura da série, “Cortina de Fumaça” foge tanto dos clichês do gênero quanto de uma abordagem excessivamente erudita. Ela consegue equilibrar ação e os elementos típicos de uma série policial ao mesmo tempo em que subverte expectativas, transmitindo mensagens profundas através das interações entre personagens que são, ao mesmo tempo, cativantes e contraditórios.
Michelle, por exemplo, se autossabota em várias ocasiões, enquanto sua relação com Steven é atraente e, ao mesmo tempo, tóxica. Sua luta para ser forte revela sua fragilidade, mostrando que ela ainda carrega as marcas de sua infância.
Entre investigações e incêndios, a série também apresenta Freddy Fasano (Ntare Mbaho Mwine), um cozinheiro solitário que, após uma vida marcada por violência, se vê diante de uma oportunidade de emprego que pode mudar sua trajetória. Assim como Dave e Michelle, Freddy é um personagem complexo, que oscila entre fragilidade e perigo, refletindo as contradições que permeiam a narrativa.
Lehane, em sua essência, nos oferece um olhar sobre o que realmente importa em “Cortina de Fumaça”: as imperfeições e as contradições de personagens que buscam felicidade e sucesso, mas que, acima de tudo, são profundamente humanos. É essa humanidade, com todas as suas falhas, que torna a série tão cativante.