Cada vez mais, indivíduos têm se identificado com transtornos e condições de saúde mental por meio de vídeos curtos, testes e relatos pessoais disseminados online, muitas vezes sem a devida avaliação clínica. Termos como ansiedade, TDAH, trauma e narcisismo são amplamente utilizados e, em algumas situações, tornam-se justificativas imediatas para emoções e comportamentos diários.
Especialistas consultados pelo Metrópoles alertam que essa tendência pode proporcionar um alívio temporário, mas também pode distorcer a compreensão e o tratamento do sofrimento emocional. O psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês, explica que nomear o que se sente pode ser uma resposta rápida à angústia. “Isso organiza o desconforto e transmite uma sensação de controle e pertencimento. Não sou o único”, diz ele.
Da mesma forma, quando alguém tenta rotular outra pessoa com um diagnóstico, isso pode simplificar demais comportamentos que são difíceis de interpretar. A psicóloga clínica Andrezza Chagas, do Grupo Reinserir, complementa que essa busca por diagnósticos está ligada a uma necessidade de pertencimento e, em alguns casos, à busca por reconhecimento e direitos.
A popularização de termos psicológicos nas redes sociais tem um aspecto positivo, ao aumentar o interesse pela saúde mental. No entanto, conforme Botelho aponta, o problema surge quando conceitos complexos são apresentados fora de seu contexto adequado. Ele ressalta que a dinâmica dos algoritmos também contribui para essa distorção: conteúdos que geram mais emoção ou viralizam aparecem com mais frequência, criando a falsa impressão de que certos transtornos são mais comuns do que realmente são.
Os especialistas advertiram que rotular-se sem uma avaliação profissional pode atrasar a obtenção do tratamento necessário. O psicólogo clínico Felipe dos Santos Minichelli, atuando em São Paulo, explica que um diagnóstico errôneo pode prejudicar todo o processo terapêutico. “Conviver com um erro de diagnóstico é um atraso para um tratamento psicológico eficaz”, afirma. Ele observa que, quando se trata de medicamentos, os riscos aumentam consideravelmente.
Andrezza compara esse comportamento à automedicação. “A pessoa pode assumir um papel que não lhe cabe e, por imitação, reproduzir sintomas. Isso pode influenciar negativamente uma futura avaliação profissional, favorecendo diagnósticos incorretos”, alerta. André também destaca como isso pode impactar os relacionamentos. “Se alguém tem certeza de que o parceiro ou o chefe é narcisista com base em conteúdos das redes, tende a agir a partir dessa crença, o que pode gerar conflitos e prejuízos”, enfatiza.
Outro risco é a crença de que simplesmente identificar um rótulo resolve o problema. Segundo André, essa rotulagem pode adiar o cuidado verdadeiro. “A pessoa pode se perder em uma busca por confirmações, mudando de testes e conteúdos, sem um acompanhamento adequado”, afirma. Além disso, existe a desigualdade de acesso. “Enquanto muitos utilizam diagnósticos como justificativa para comportamentos, há aqueles que necessitam de uma avaliação qualificada, mas carecem de recursos. Isso reforça a urgência de políticas públicas voltadas para a saúde mental”, diz Felipe.
André ressalta que diagnósticos não devem ser feitos com base em vídeos ou comportamentos isolados. “Não se trata de uma lista de verificação. Isso envolve história, contexto, tempo de evolução, impacto funcional e a exclusão de outras causas. O algoritmo não faz perguntas; o profissional faz”, explica o psiquiatra. Ele conclui que, mais do que rotular, o fundamental é entender o significado do sofrimento. “Tratar alguém emocionalmente requer uma visão da experiência única de cada indivíduo e a decisão conjunta sobre a melhor forma de cuidar”.