Apesar das boas iniciativas para diminuir os casos de dengue no Brasil, desde o uso de vacinas até novas tecnologias para combater o mosquito, o país deve continuar a enfrentar um número alto de casos da doença pelas próximas décadas. A avaliação é do infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Em entrevista ao Metrópoles, Croda falou sobre o cenário atual da dengue e de outras arboviroses (doenças transmitidas por mosquitos) no Brasil. Para ele, embora as estratégias de controle adotadas sejam necessárias, a doença seguirá sendo ameaçadora, especialmente em momentos de altas temperaturas e umidade, onde a proliferação do mosquito cresce.
Segundo o infectologista, mais do que um cenário que possamos pensar na eliminação da doença, ainda estamos caminhando para o controle da epidemia. “O momento é de esperança, mas ainda teremos por muito tempo pessoas suscetíveis, tanto aquelas que não puderem receber a vacina como as que vivem em locais onde os controles ao mosquito não foram tão eficazes”, indica.
Para ele, ainda estamos distantes de chegar ao que alcançamos na febre amarela, outra grave doença transmitida pelo Aedes aegypti. “A febre amarela é uma doença de zona rural, com uma vacina que tem eficácia extremamente elevada para prevenir também a doença assintomática, e com uma proteção bastante duradoura. Ainda não temos os dados das duas vacinas da dengue em relação à sua eficiência a longo prazo e, de toda forma, precisaríamos vacinar 80, 90% da população para chegarmos a um cenário parecido”, avalia ele.
Se os números se confirmarem, 2026 será o quinto ano consecutivo em que o país ultrapassa a marca de 1 milhão de diagnósticos, com um leve aumento em relação a 2025, que teve 1,6 milhão. O recorde segue com 2024, quando os casos ultrapassaram a marca de 6,5 milhões de pessoas atingidas.
Os recordes sucessivos registrados nos últimos três anos decorreram de fatores climáticos globais e locais. O aumento da temperatura média no Brasil favorece a reprodução do mosquito e também sua circulação em localidades de clima mais ameno onde antes ele não estava presente.
“No pico de 2024, por exemplo, tivemos uma confluência do boom de casos com o El Niño, que contribuiu para esse contexto. Esse processo amplia áreas de risco e expõe populações sem histórico prévio de contato com o vírus, situação que favorece novos surtos”, afirma ele.
Em regiões onde o mosquito não circulava de forma intensa, parte expressiva da população não desenvolveu imunidade, já que ela só é adquirida a partir do contato com os sorotipos da doença. “Esse fator sustenta a continuidade da transmissão, já que há diferentes formas da doença circulando sempre entre diferentes pessoas”, conta.
A dengue é uma doença infecciosa transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti. Com maior incidência no verão, tem como principais sintomas: dores no corpo e febre alta. Considerada um grave problema de saúde pública no Brasil, a doença pode levar o paciente à morte
O Aedes aegypti apresenta hábitos diurnos, pode ser encontrado em áreas urbanas e necessita de água parada para permitir que as larvas se desenvolvam e se tornem adultas, após a eclosão dos ovos, dentro de 10 dias
A infecção dos humanos acontece apenas com a picada do mosquito fêmea. O Aedes aegypti transmite o vírus pela saliva ao se alimentar do sangue, necessário para que os ovos sejam produzidos
No geral, a dengue apresenta quatro sorotipos. Isso significa que uma única pessoa pode ser infectada por cada um desses
micro-organismos e gerar imunidade permanente para cada um deles – ou seja, é possível ser infectado até quatro vezes
Os primeiros sinais, geralmente, não são específicos. Eles surgem cerca de três dias após a picada do mosquito e podem incluir: febre alta, que geralmente dura de 2 a 7 dias, dor de cabeça, dores no corpo e nas articulações, fraqueza, dor atrás dos olhos, erupções cutâneas, náuseas e vômitos
No período de diminuição ou desaparecimento da febre, a maioria dos casos evolui para a recuperação e cura da doença. No entanto, alguns pacientes podem apresentar sintomas mais graves, que incluem hemorragia e podem levar à morte
Nos quadros graves, os sintomas são: vômitos persistentes, dor abdominal intensa e contínua, ou dor quando o abdômen é tocado, perda de sensibilidade e movimentos, urina com sangue, sangramento de mucosas, tontura e queda de pressão, aumento do fígado e dos glóbulos vermelhos ou hemácias no sangue
Nestes casos, os sintomas resultam em choque, que acontece quando um volume crítico de plasma sanguíneo é perdido. Os sinais desse estado são pele pegajosa, pulso rápido e fraco, agitação e diminuição da pressão
Alguns pacientes podem ainda apresentar manifestações neurológicas, como convulsões e irritabilidade. O choque tem duração curta, e pode levar ao óbito entre 12 e 24 horas, ou à recuperação rápida, após terapia antichoque apropriada
Apesar da gravidade, a dengue pode ser tratada com analgésicos e antitérmicos, sob orientação médica, tais como paracetamol ou dipirona, para aliviar os sintomas
Para completar o tratamento, é recomendado repouso e ingestão de líquidos. Já no caso de dengue hemorrágica, a terapia deve ser feita no hospital, com o uso de medicamentos e, se necessário, transfusão de plaquetas
O Brasil dispõe atualmente de duas vacinas contra a dengue. A primeira, a Qdenga da Takeda, foi lançada há dois anos e é destinada para crianças e adolescentes. Recentemente o país passou a contar também com imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, que começará a ser aplicado neste mês.
Em ambos os casos, o número de doses disponíveis permanece restrito, o que impede um impacto imediato sobre a transmissão em escala nacional.
Um acordo que seria celebrado entre a Fiocruz e a Takeda para aumentar a distribuição da vacina com a produção no Brasil, acabou não prosperando pelo desacordo entre as partes sobre o compartilhamento da tecnologia para fazer o imunizante.
A vacinação não é a única estratégia de proteção. Também tem ganhado maior escala no Brasil a difusão de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia, que impede a reprodução dos insetos.
“Eles têm sido soltos em várias cidades e o monitoramento ocorre por meio de armadilhas que medem porcentagem de mosquitos com a bactéria em áreas específicas. Em breve, esperamos ter regiões com 60, até 80% dos insetos capturados infectados com ela”, pondera.
Apesar do potencial, essa tecnologia depende da lentidão dos ciclos de reprodução dos próprios insetos. Enquanto isso, medidas tradicionais seguem necessárias com a eliminação dos focos domiciliares. “É a mesma estratégia que já conhecemos: evitar água parada, acúmulos de lixo e usar repelentes e roupas adequadas para proteção pessoal”, concluiu o pesquisador.
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