O percurso de quem opta pela reprodução assistida ainda enfrenta desafios relacionados à incerteza. Embora a fertilização in vitro (FIV) tenha avançado significativamente, a resposta do organismo feminino aos hormônios varia de mulher para mulher, a qualidade dos óvulos nem sempre é previsível e a determinação do número ideal de ciclos permanece uma incógnita. Nesse contexto, as ferramentas de inteligência artificial (IA) se apresentam como valiosas aliadas.
Esse tema foi amplamente debatido no recente Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida, realizado em outubro em São Paulo. O ginecologista José Pedro Parise Filho, especialista em reprodução assistida do Hospital Israelita Einstein, destaca que “a aplicação da inteligência artificial na reprodução humana não é uma novidade. Embora tenha sido objeto de estudo por um tempo, sua precisão e aplicabilidade aumentaram consideravelmente nos últimos cinco anos.”
A variabilidade nos tratamentos de reprodução assistida permeia quase todas as decisões clínicas nesse campo. Embriologistas, mesmo os mais experientes, ainda dependem de avaliações visuais e de sua própria vivência para selecionar óvulos, espermatozoides e embriões, o que torna o processo técnico ainda suscetível à interpretação humana.
Diferenças sutis na interpretação podem resultar em decisões divergentes, sendo uma das razões pelas quais as taxas de sucesso da FIV se mantêm relativamente constantes ao longo do tempo. “A IA contribui para padronizar avaliações e identificar padrões que não são visíveis a olho nu”, afirma Parise Filho, que também atua como médico assistente no Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da USP.
A tecnologia já está integrada em várias fases da FIV. “Existem algoritmos que auxiliam na triagem de casais para ovodoação e recepção, análise de gametas, seleção embrionária e previsão de resultados clínicos. Contudo, é importante ressaltar que esses sistemas não substituem os métodos tradicionais. Sua principal função é diminuir a variabilidade entre os profissionais”, comenta Roberto de Azevedo Antunes, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA).
Entre as ferramentas disponíveis, algumas foram projetadas para analisar óvulos e orientar decisões durante o congelamento ou a FIV, identificando padrões microscópicos, simetria, granulosidade, integridade e características imperceptíveis ao olho humano. “Já existem softwares comerciais que conseguem avaliar óvulos, calcular as probabilidades de sucesso e sugerir quais devem ser priorizados”, explica Parise. No entanto, ele alerta que essas tecnologias ainda precisam de validação para comprovar sua eficácia em aumentar as taxas de nascidos vivos.
A análise de embriões também se beneficiou do uso de incubadoras time-lapse, que criam modelos preditivos sobre a viabilidade dos embriões, registrando continuamente imagens que podem ser avaliadas sem a necessidade de abrir o equipamento. Atualmente, esses sistemas apresentam uma eficácia que varia de 60% a 70%. “Embora a tecnologia seja promissora, é fundamental que sua eficácia real seja comprovada antes de sua adoção como padrão”, ressalva Antunes.
Outro campo em exploração é a aplicação da IA na fase de planejamento do estímulo ovariano. Essas ferramentas examinam diversas características e exames, sugerindo doses de medicação para alcançar o número desejado de óvulos. “Temos observado melhorias em casos selecionados ao utilizarmos essas ferramentas como suporte nas decisões clínicas. Contudo, devido à validação limitada e ao risco de erros, elas devem ser utilizadas como complemento, e nunca isoladamente”, afirma Parise.
A IA também gera um “escore de viabilidade”, que estima a probabilidade de cada óvulo ou embrião resultar em uma gestação, oferecendo relatórios personalizados. Isso significa que, em vez de depender apenas de médias populacionais, os pacientes recebem previsões personalizadas sobre a chance de cada óvulo ou embrião levar a uma gravidez, reduzindo a sensação de tentativa e erro.
Nos laboratórios, a IA já tem contribuído para minimizar erros e padronizar etapas críticas, especialmente na classificação embrionária. Entretanto, a tecnologia não substitui o elemento humano. “Ela é uma ferramenta adicional. O cuidado emocional, a comunicação clara e a presença ativa do médico permanecem essenciais. A IA deve permitir que os profissionais tenham mais tempo para se conectar com os pacientes, e não para afastá-los”, enfatiza o presidente da SBRA.
O custo elevado é um entrave à adoção generalizada dessas tecnologias. Licenças, infraestrutura e capacitação encarecem um tratamento que já possui altos custos. Um ciclo de reprodução assistida pode variar de R$ 15 mil a R$ 45 mil, dependendo da localidade, quantidade de medicação e do profissional envolvido.
O investimento em ferramentas de IA varia de R$ 1 mil a R$ 3 mil, também conforme o caso. “É necessário desenvolver soluções brasileiras que ajudem a reduzir custos, além de estudos independentes que demonstrem claramente onde a IA pode economizar recursos, como medicação ou ciclos desnecessários”, pondera Parise.
No Brasil, é comum que todo o custo recaia sobre o paciente, uma vez que são poucos os centros que realizam tratamentos gratuitos ou com custo reduzido. “Por isso, é crucial que cada nova tecnologia demonstre seu benefício real antes de ser incorporada”, reforça Antunes.
Nos próximos anos, a integração de dados clínicos, genéticos, hormonais e de imagem promete transformar o modelo atual em uma medicina de precisão. “Com essa integração, será possível personalizar as doses hormonais, prever o número necessário de óvulos, estimar riscos e direcionar aqueles que realmente se beneficiarão de exames adicionais ou intervenções específicas”, projeta o especialista da SBRA.
À medida que a tecnologia avança, crescem também as questões éticas. A SBRA orienta que a utilização da IA respeite a Lei Geral de Proteção de Dados, mantenha supervisão humana obrigatória e assegure total transparência com os pacientes.