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Como assistir TV enquanto come pode confundir o cérebro e levar ao exagero

Hendrik Schmidt/picture alliance via Getty Images

Saborear uma refeição diante da televisão pode parecer uma prática inofensiva e até relaxante para muitos. No entanto, esse hábito cotidiano possui impactos diretos no funcionamento do cérebro, na digestão e na regulação do apetite.

Especialistas destacam que, ao focar a atenção na tela, o corpo tende a “desconectar” do que está sendo consumido. Isso pode resultar em um consumo excessivo de alimentos, diminuição do prazer gastronômico e confusão entre a fome física e a emocional. A psicóloga Handreza Oliveira enfatiza que a fragmentação da atenção é o principal desafio nesse cenário.

O córtex pré-frontal, que está ligado a decisões conscientes, é ocupado pelas imagens da TV, enquanto a comunicação entre o sistema digestivo e o hipotálamo — responsável por processar a sensação de saciedade — se torna mais lenta. A percepção de satisfação não se resume a um estômago cheio; abrange hormônios, sentidos e uma fase inicial da digestão, conhecida como fase cefálica, que se inicia com a visão, o aroma e a expectativa do alimento, preparando o corpo para a refeição.

“Quando a atenção não está voltada para o prato, essa fase é ignorada. A comida chega ‘de surpresa’ ao estômago, e o cérebro demora a entender que é hora de parar de comer”, explica Handreza. Isso contribui para um consumo acima do que o corpo realmente necessita.

Na prática, essa distração prejudica a memória da refeição. O cérebro registra menos sobre o que foi ingerido, e logo após, emite novos sinais de fome. “A atenção dividida compromete a memória episódica da refeição, que é responsável por armazenar a experiência, o sabor e a satisfação. Sem essa lembrança, a fome retorna mais rapidamente”, complementa a psicóloga. Além disso, a sensação de prazer diminui: logo após as primeiras garfadas, o ato de comer entra em um modo automático, sem real satisfação.

Ademais, existe uma relação significativa entre comer distraído e episódios de exagero alimentar. Na perspectiva da terapia cognitivo-comportamental, isso é visto como uma desconexão do momento presente. Para aqueles que enfrentam a compulsão alimentar, a televisão pode atuar como um anestésico emocional.

A distração prolonga esses episódios, já que a sensação de desconforto causada pelo estômago cheio leva mais tempo para ser percebida. Nutrientes também são afetados por essa falta de atenção, levando a escolhas alimentares automáticas e menos saudáveis. Durante esses momentos, é comum optar por alimentos que exigem pouca mastigação e oferecem recompensas rápidas, como salgadinhos, doces e fast-food — ultraprocessados, que são ricos em açúcar, gordura e sal, mas pobres em nutrientes.

Comer de maneira atenta estimula a produção de saliva e enzimas digestivas antes da primeira mordida. Segundo nutricionistas, a distração compromete essa preparação essencial. A mastigação se torna insuficiente, e a digestão pode se tornar lenta e menos eficaz. Além disso, a distração pode atrasar a percepção da saciedade: embora existam hormônios como leptina e grelina que regulam o apetite, as evidências sugerem que a interferência é principalmente cognitiva — o cérebro não reconhece a tempo que o corpo já recebeu energia suficiente.

A longo prazo, o hábito de comer enquanto assiste TV está associado a um aumento no índice de massa corporal (IMC) e a um maior risco de sobrepeso e obesidade. Isso ocorre porque a pessoa passa a se guiar por estímulos externos — como a duração de um programa — em vez dos sinais internos do corpo.

Outro fator relevante é o condicionamento: com o tempo, o cérebro associa o sofá e a TV ao ato de comer. “Mesmo sem fome, ao ligar a televisão, surge uma vontade automática de comer”, afirma Handreza.

Crianças e adolescentes são especialmente suscetíveis nesse contexto. Além de consumirem mais calorias em frente às telas, tendem a escolher alimentos menos saudáveis, influenciados por propagandas, e acabam por optar por porções maiores.

Os profissionais ressaltam que não é necessário buscar a perfeição, mas sim fazer pequenas escolhas consistentes. Uma delas é reservar ao menos uma refeição por dia sem distrações, concentrando-se nos sabores, aromas e texturas. Outra dica é porcionar os alimentos antes de assistir a um filme, evitando comer diretamente da embalagem e priorizando opções mais saudáveis, como pipoca caseira com pouco óleo e frutas.

Handreza finaliza com uma metáfora: “Comer assistindo TV é como conversar com alguém usando fones de ouvido. A mensagem chega, mas não é plenamente compreendida”. Ao desligar a tela e focar a atenção, o cérebro consegue ouvir melhor o corpo — e a comida retoma seu verdadeiro papel de nutrir, ao invés de apenas distrair.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade