Os avanços mais recentes na medicina parecem ter saído diretamente de uma narrativa de ficção científica, incluindo desde a adaptação de órgãos de animais para transplantes humanos até a utilização da inteligência artificial (IA) em todas as fases de pesquisas médicas. Embora à primeira vista essas inovações pareçam distantes, elas estão entre as mais significativas para salvar vidas.
No domínio da inteligência artificial, as investigações mais recentes indicam que essas tecnologias poderão se tornar essenciais para a realização de diagnósticos. “Entretanto, ainda há um elemento humano que não pode ser reduzido a dados estruturados que uma IA pode processar. O diagnóstico médico envolve contexto, interação e sinais sutis, muitas vezes até aspectos sensoriais”, observa Nakaya.
“Observamos, no entanto, que essas ferramentas estão se tornando cada vez mais eficazes em integrar informações de diversas fontes. Isso abre possibilidades para pesquisas que podem realmente mudar a maneira como a tecnologia se integra à prática médica, sem substituir o médico”, acrescenta.
A seguir, apresentamos quatro inovações destacadas em pesquisas de 2025 que, segundo Nakaya, têm o potencial de abrir novas fronteiras na área da saúde.
A ciência tem buscado alternativas para minimizar a fila de indivíduos à espera de transplantes de órgãos, uma situação particularmente crítica no caso da doação de rins: conforme dados do Sistema Nacional de Transplantes, das 47 mil pessoas à espera de um doador compatível no Brasil, 44 mil aguardam por um rim.
Para enfrentar esse desafio, ensaios clínicos estão explorando o uso de órgãos de porcos geneticamente modificados, visando reduzir os riscos de rejeição e proporcionar alívio, ainda que temporário, a pacientes com falência de órgãos. A técnica, conhecida como xenotransplante, já está sendo aplicada em estudos com pulmões, fígados e corações, embora os rins enfrentassem resistência do organismo.
Um estudo publicado em fevereiro na revista The New England Journal of Medicine revelou que é possível mitigar essa rejeição. Realizada com a colaboração de médicos brasileiros, essa pesquisa foi considerada uma das principais descobertas do setor, aprimorando as técnicas de edição de DNA e facilitando a integração do rim xenotransplantado ao paciente.
“Há anos já vemos pesquisas nessa área, mas a grande mudança é que agora dispomos de ferramentas de edição genômica mais avançadas e um conhecimento mais profundo sobre imunologia e rejeição, permitindo entender quais genes os cientistas devem modificar nos porcos para garantir o sucesso desse processo”, explica um pesquisador do Einstein.
Outra pesquisa significativa foi publicada em julho na Nature Medicine, onde um sistema de inteligência artificial identificou o melhor alvo terapêutico para combater a fibrose pulmonar idiopática e projetou uma molécula para tratá-la.
“Esse estudo foi notável por dois motivos. Primeiro, a IA escolheu atacar uma proteína que ninguém havia considerado. Em seguida, uma outra IA desenhou uma droga capaz de inibir essa proteína”, detalha o professor responsável.
O ensaio clínico baseado na terapia proposta pela IA envolveu 71 participantes ao longo de 30 meses e apresentou resultados promissores. Apesar de a criação ter sido liderada por um computador, a responsabilidade sobre o material publicado permaneceu com especialistas, mantendo padrões tradicionais de supervisão. A inovação reside na habilidade de analisar caminhos que não estavam no foco dos pesquisadores.
Outro avanço relevante do ano é um modelo de inteligência artificial capaz de prever a progressão de doenças a partir de amplos conjuntos de dados. Apresentado em setembro na Nature Medicine, o sistema é baseado na mesma lógica dos modelos generativos usados em ferramentas como o ChatGPT, mas opera com eventos de saúde. Cada diagnóstico, internação ou condição clínica funciona como um “token”, e o modelo aprende a sequência desses eventos na vida dos indivíduos.
“Ao analisar o histórico de um paciente, o sistema estima quais doenças têm maior probabilidade de surgir no futuro e em que prazo”, esclarece Nakaya. Isso possibilita a simulação de trajetórias de saúde e serve como uma ferramenta de apoio à decisão, auxiliando médicos e pesquisadores na antecipação de riscos, planejamento de acompanhamento e desenvolvimento de estratégias de prevenção com base em dados populacionais, sempre dentro de contextos controlados e com limites bem definidos.
Uma pesquisa recente também analisou sinais cerebrais para descrever pensamentos, “lendo a mente” de voluntários. Publicado na revista Science Advances no início de novembro, este estudo utilizou mapas que identificam quais regiões do cérebro se ativam quando pensamos em objetos específicos, permitindo prever conteúdos imaginados.
“Não se trata de acessar pensamentos íntimos ou desvendar a mente humana”, explica o pesquisador. “Esses estudos demonstram que, ao conhecer um conjunto de estímulos e mapear como o cérebro responde a eles, torna-se possível reconhecer padrões associados a objetos, cenas ou ações específicas. É mais parecido com traduzir sinais cerebrais em descrições do que com ler pensamentos.”
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