Durante a agitação para assar o peru, ajustar o ponto ideal do bacalhau e finalizar a salada de maionese, o preparo das refeições festivas de fim de ano esconde um perigo muitas vezes ignorado: a combinação de alimentos crus e cozidos, juntamente com a falta de higiene, cria um ambiente propício para a proliferação de bactérias que podem causar desde intoxicações alimentares até infecções urinárias.
É nesse ritmo acelerado que ocorrem os deslizes: a tábua utilizada para cortar o frango cru é a mesma usada para fatiar a salada, a pia fica salpicada com os respingos da lavagem das aves e os pratos frios permanecem tempo demais à temperatura ambiente. Esses hábitos, quando acumulados, favorecem o crescimento de bactérias resistentes que podem resultar em infecções mais graves do que um simples desconforto após a ceia.
Um cuidado fundamental é evitar a lavagem de carnes cruas — seja bovina, suína, peixes ou, especialmente, frango. Os micro-organismos presentes nas aves são uma das principais causas de contaminação cruzada na cozinha. Ao lavar o frango, por exemplo, superfícies, utensílios ou outros alimentos podem ser contaminados. “Os utensílios usados para manipular carne crua, incluindo a tábua, não devem ser os mesmos para preparar o alimento cozido”, orienta o especialista Lewi. “Além disso, é essencial armazenar tudo na temperatura adequada e em recipientes bem fechados para garantir a segurança alimentar.”
Não se deve considerar normal sentir-se mal durante as festividades de fim de ano. Como esse período é marcado por excessos alimentares, muitas pessoas demoram a buscar atendimento ao enfrentar sintomas como diarreia, náuseas, vômitos e dores abdominais. “É crucial lembrar que infecções gastrointestinais nem sempre são problemas simples que se resolvem sozinhos, como muitos pensam. Elas podem necessitar de tratamento intensivo e, em casos extremos, até resultar em óbito”, alerta o infectologista.
Os riscos associados ao preparo de alimentos vão além das infecções gastrointestinais. Um estudo publicado na revista mBio sugere uma ligação entre o manuseio de alimentos mal higienizados e o aumento de infecções urinárias. A pesquisa revela que 18% das infecções urinárias são causadas pela bactéria Escherichia coli, que pode ser encontrada em alimentos.
Embora a E. coli se transmita pela via fecal-oral, cerca de 85% dos casos de infecção urinária são atribuídos a essa bactéria. A situação é ainda mais grave para mulheres que residem em áreas sem saneamento básico — o estudo indica que elas têm um risco 60% maior de desenvolver infecções urinárias devido a contaminações na cozinha. Os pesquisadores identificaram que as aves são as principais fontes de contaminação, especialmente o peru, cujos microrganismos foram detectados no trato urinário feminino durante a investigação.
“Existem dois fatores que ajudam a explicar a relação entre a E. coli e infecções urinárias. O primeiro é a proximidade anatômica que as mulheres têm entre o ânus e o canal urinário, o que facilita a transmissão dessas infecções. Além disso, as mulheres costumam ser as principais responsáveis pelo preparo dos alimentos, e ao manusear ingredientes contaminados, podem transferir as bactérias para o trato urinário”, esclarece o médico do Einstein.
Qualquer alimento cozido a temperaturas superiores a 75°C elimina suas bactérias, incluindo a E. coli. Exceto para preparações cruas que precisam ser refrigeradas, como saladas de maionese, a pia é um dos principais pontos de contaminação. Utensílios utilizados para carnes devem ser distintos dos usados para vegetais. Ademais, tudo que tiver contato com carne crua deve ser esterilizado em água fervente antes de ser guardado de volta.
É aconselhável manter os preparos de vegetais, como a maionese, refrigerados antes de cozinhar carnes e aves, para evitar contaminação cruzada. “Os vegetais também precisam ser lavados e deixados de molho em uma solução higienizadora para prevenir contaminações”, recomenda David Lewi.
Os cuidados devem ser ainda mais rigorosos para quem abate animais em casa ou utiliza carnes inteiras não limpas previamente, uma vez que a remoção das vísceras pode espalhar bactérias. O ideal é realizar essa limpeza em uma pia diferente daquela que será usada para outros alimentos.
E atenção! Apenas lavar a pia com esponja e detergente após o preparo não é suficiente. “Muitas aves provenientes de granjas industriais apresentam bactérias multirresistentes, por isso, é necessário um cuidado redobrado na limpeza das superfícies de trabalho, utilizando água sanitária, desinfetantes e, se possível, água fervente”, alerta Lewi.
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