O Wegovy, uma versão aprovada do Ozempic voltada para o tratamento da obesidade, é reconhecido principalmente por sua eficácia no controle de peso em pacientes que lidam com comorbidades. Recentemente, um número crescente de pesquisas tem apontado outros benefícios associados ao uso do medicamento, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de validar mais uma dessas aplicações: a reversão da inflamação hepática provocada pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado, além de melhorias nos níveis de fibrose.
Na segunda-feira (15/12), a Anvisa autorizou a ampliação das indicações do Wegovy, permitindo que o medicamento da Novo Nordisk seja utilizado no tratamento da gordura no fígado com inflamação relacionada à disfunção metabólica, uma condição conhecida como MASH. Esta aprovação se aplica a adultos que apresentam fibrose hepática de grau moderado a avançado, mas sem cirrose.
O acúmulo de gordura no fígado pode resultar de um consumo excessivo de álcool ou de hábitos alimentares e de atividade física inadequados, fenômeno que tem se intensificado em várias partes do mundo. A esteatose hepática, denominação técnica para esta condição, afeta pelo menos 30% da população global e está intimamente relacionada ao sobrepeso e à obesidade, com cerca de 80% das pessoas com excesso de peso sofrendo deste problema.
Além de elevar o risco de doenças cardiovasculares, a esteatose pode progredir para inflamações (MASH), uma condição que pode se tornar séria, levando a cirrose ou câncer de fígado. Nos casos mais severos, a única opção de tratamento é o transplante hepático. Atualmente, mais de 250 milhões de indivíduos em todo o mundo convivem com MASH, e as projeções indicam que o número de pacientes em estágios avançados da doença pode dobrar até 2030.
Os indivíduos com MASH enfrentam um risco maior de desenvolver doenças hepáticas avançadas, como câncer de fígado, além de uma probabilidade aumentada de infarto, AVC e morte cardiovascular, quando comparados à população em geral. Um estudo da The Lancet, publicado em novembro, revela que a proporção de casos de câncer de fígado associados à MASH deve subir de 8% em 2022 para 11% em 2050.
A aprovação da Anvisa se fundamenta nos resultados do estudo Essence, um ensaio clínico de fase 3, que é a última etapa necessária para a liberação de um novo medicamento, publicado em abril de 2025. Neste estudo, 1.200 participantes foram distribuídos aleatoriamente em uma proporção de 2:1 para recebimento de semaglutida 2,4 mg ou placebo, juntamente com o tratamento padrão, durante 240 semanas. Os resultados mostraram que o Wegovy superou o placebo na reversão da inflamação do fígado e na melhoria da fibrose hepática. Os dados clínicos revelaram que, após 72 semanas:
• 63% dos pacientes que utilizaram Wegovy alcançaram a reversão total da MASH, em comparação com 34,3% do grupo que recebeu placebo e foi apenas orientado a melhorar seus hábitos alimentares e de exercícios.
• 37% dos pacientes tratados com Wegovy apresentaram melhora no estágio da fibrose hepática, em comparação a 22,4% no grupo placebo.
• 33% dos pacientes experimentaram ambos os benefícios simultaneamente, com reversão da inflamação e melhora da fibrose.
“A aprovação anunciada hoje representa um avanço significativo no enfrentamento da gordura no fígado no Brasil, uma condição silenciosa, mas severa, que está intimamente ligada à epidemia de obesidade”, afirma a endocrinologista Priscilla Mattar, vice-presidente da área médica da Novo Nordisk no Brasil.
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