*Este artigo é de autoria de Fabián Patricio Cuenca Mayorga, professor e pesquisador da Universidade Técnica de Machala, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Por muitos séculos, o azeite de oliva reinou supremo como o “ouro líquido” da tradição mediterrânea, sendo venerado desde a antiguidade. Contudo, toda narrativa épica necessita de novos capítulos; um novo mundo a ser explorado, que promete riquezas ainda não reveladas.
Este relato contemporâneo é uma jornada que se desloca das florestas para as montanhas. A busca pelo novo “El Dorado” não se dá por pepitas reluzentes, mas sim por óleos que fluem das sementes de quinoa e do tremoço andino. Essa não é uma mera lenda; essa jornada se inicia nos altiplanos da América do Sul, onde o ar é rarefeito e as sementes guardam segredos milenares.
O objetivo não é encontrar uma cidade perdida, mas sim uma garrafa que capture a essência dessas culturas resilientes. O que descobrir ao prensar essas sementes? Um tesouro lipídico que pode reconfigurar o cenário dos óleos atuais.
A primeira pista sobre esse tesouro está em sua composição química. O óleo de quinoa se destaca como uma fonte rica em ácidos graxos insaturados, que representam de 82% a 85% de seu perfil lipídico. Essa abundância de ácidos insaturados, especialmente o ácido linoleico (ômega-6) e o ácido oleico (ômega-9), confere a ele um valor nutricional significativo.
O destaque vai para a presença do ácido α-linolênico (ômega-3), que se sobressai em comparação com muitos óleos vegetais comuns, embora não alcance os níveis excepcionais de óleos como os de linhaça ou chia. Mesmo assim, sua contribuição de ômega-3 o torna um componente relevante na composição lipídica.
Esse nutriente transforma o óleo em algo além de um simples tempero. Ele é acompanhado por uma gama de compostos bioativos, incluindo os tocoferóis, diferentes formas de vitamina E.
Além disso, pesquisas indicaram a presença significativa de fitoesteróis, como o β-sitosterol, que aprimoram seu perfil funcional. Esses compostos protegem o óleo da oxidação e oferecem benefícios à saúde.
Sua estabilidade térmica é moderada, o que indica que sua aplicação é mais adequada para temperos frios e cozimentos suaves, similar a uma joia delicada, cujo brilho é melhor apreciado sem passar pelo calor intenso.
O perfil do óleo de tremoço também compartilha características com óleos de alto valor nutricional, como o azeite de oliva extra virgem, principalmente pela sua riqueza em ácido oleico. Embora contenha uma quantidade considerável de ácido linoleico, seu equilíbrio de gorduras insaturadas, juntamente com compostos antioxidantes naturais como o γ-tocoferol, o torna um óleo promissor.
Mais do que comparações, seu valor reside em suas próprias qualidades, posicionando-o como uma alternativa saudável e emergente entre os óleos vegetais. Sua estabilidade se reflete em um ponto de fumaça elevado (206°C), permitindo que ele seja utilizado em frituras e refogados em altas temperaturas, onde outros óleos de qualidade superior falham.
Uma característica notável, tanto do ponto de vista industrial quanto comercial, é sua longa vida útil, que ultrapassa um ano em temperatura ambiente; um tesouro que não oxida, preservando seu conteúdo intacto devido aos compostos antioxidantes. Essa qualidade o torna viável para armazenamento e distribuição.
A riqueza desses óleos vai além do paladar ou das propriedades técnicas. Seu verdadeiro valor está em sua funcionalidade; o perfil lipídico de ambos é reconhecido por suas propriedades cardioprotetoras. Essa combinação de ácidos graxos insaturados tem demonstrado eficácia em aumentar os níveis de HDL (o “bom” colesterol) e reduzir os níveis de LDL (o “mau”), prevenindo problemas de saúde.
Os fitoesteróis, presentes em quantidades significativas, atuam como agentes redutores do colesterol, competindo com a absorção de colesterol no intestino. Além disso, sua variedade de compostos com ação antioxidante combate o estresse oxidativo e a inflamação crônica. Em essência, são um tesouro que fortalece a saúde interna.
Esse tesouro é também ecológico e social. As culturas são sustentáveis e adaptadas às condições rigorosas dos Andes, exigindo menos insumos externos, como fertilizantes e pesticidas, em comparação com outras culturas oleaginosas. Assim, promovem uma agricultura de baixo impacto e representam uma oportunidade para o desenvolvimento rural.
O colesterol, embora essencial para a produção das membranas celulares e alguns hormônios, é comumente dividido em diferentes tipos: os conhecidos HDL e LDL. O LDL, considerado o colesterol “ruim”, em níveis elevados, pode formar placas nas artérias, dificultando a circulação sanguínea. Quanto mais elevado o LDL, maior o risco de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Embora silencioso, alguns sinais podem indicar problemas, como xantelasmas e xantomas (pequenos depósitos de gordura na pele) e dores na barriga, dedos das mãos e pés. Para controlar o colesterol ruim, recomenda-se a prática de exercícios físicos por 30 minutos, três vezes por semana, aumentar a ingestão de fibras solúveis, e consumir gorduras saudáveis, presentes no azeite extravirgem e em alimentos ricos em ômega-3, além de bebidas como chá-preto e suco de berinjela.
Entretanto, a comercialização do óleo de quinoa enfrenta um desafio prático: a extração em larga escala ainda está em fase experimental. Dados científicos indicam rendimentos baixos, entre 5% e 7,2%, o que compromete sua viabilidade econômica. Atualmente, essa extração é realizada principalmente em laboratórios de pesquisa e em plantas piloto, sem uma rede de comercialização estabelecida.
É, por ora, uma veia estreita e desafiadora que exige otimização de processos. No Peru, em um estudo com dez variedades de quinoa cultivadas na região de Huancavelica, foram determinados os rendimentos e propriedades físico-químicas do óleo extraído em laboratório. Para o óleo de tremoço, os rendimentos são superiores (14% a 22%).
No Equador, o Instituto Nacional de Investigações Agropecuárias (INIAP) tem conduzido estudos sobre o tremoço, avaliando métodos de extração (prensagem mecânica e uso de solventes) e a qualidade nutricional do óleo produzido. Somando-se a isso as excelentes qualidades de estabilidade mencionadas, o tremoço se apresenta como um candidato promissor.
Instituições de pesquisa e desenvolvimento têm se destacado nessa busca. Conseguiram desenvolver e aprimorar processos para obter óleos virgens de tremoço que atendem aos padrões internacionais de acidez, peróxidos e umidade. O tesouro não apenas existe, como já está sendo “extraído e cunhado” em lotes que demonstram sua viabilidade comercial.
Os óleos de quinoa e tremoço andino estão deixando de ser mitos e se firmando como o “El Dorado líquido” do século XXI. Representam uma oportunidade inestimável, transformando cultivos ancestrais em produtos de alto valor comercial, promovendo um desenvolvimento rural sustentável e oferecendo ao mundo uma alternativa genuinamente saudável, sustentável e repleta de uma narrativa poderosa de resiliência e saber ancestral.
Esse tesouro não se acumula em baús, mas se desfruta à mesa. Sua verdadeira riqueza se mede em saúde, sustentabilidade e justiça social. A era de consolidação do tesouro andino está apenas começando, com a promessa de se expandir nos mercados globais.
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