Embora o termo possa parecer complicado, a esteatose hepática afeta aproximadamente um terço da população global. Essa condição ocorre quando há um acúmulo de gordura no fígado que ultrapassa 5% da massa do órgão. Apesar de muitos considerarem essa condição como um problema menor, a esteatose está associada a um aumento no risco de cirrose, diabetes e até câncer hepático.
O fígado desempenha funções essenciais no corpo, como a filtragem do sangue, a eliminação de toxinas, a regulação da coagulação, o metabolismo de gorduras e medicamentos, além da produção de proteínas. Quando o fígado acumula gordura em excesso, essas funções podem ser prejudicadas.
Nos estágios iniciais, a esteatose geralmente não apresenta sintomas. No entanto, se não for tratada, pode evoluir para condições mais sérias. Os sinais costumam aparecer em estágios mais avançados e podem incluir dor no lado direito do abdômen, fadiga, icterícia (olhos amarelados) e aumento do volume abdominal.
Um estudo da Comissão Lancet sobre câncer de fígado, publicado em agosto, revelou que 60% dos casos dessa doença, que é o terceiro tipo de tumor mais letal no mundo, podem ser prevenidos ao controlar fatores de risco, incluindo a esteatose. O oncologista Ramon Andrade de Mello, da High Clinic Brazil, destaca que a forma mais severa da gordura no fígado, conhecida como MASH, é uma das causas que mais crescem entre os cânceres hepáticos. As projeções indicam que os casos de câncer de fígado relacionados à esteatose podem aumentar em 11% até 2050.
A elevação da gordura no fígado está diretamente relacionada ao estilo de vida contemporâneo, caracterizado por dietas inadequadas e falta de atividade física. “É crucial tomar medidas agora para evitar que essa condição se agrave”, conclui Ramon.
O câncer de fígado é um tumor maligno, frequentemente agressivo, que surge nas células do fígado, como os hepatócitos, canais biliares ou vasos sanguíneos. Fatores que podem elevar o risco incluem cirrose hepática, acúmulo de gordura no fígado e uso de anabolizantes.
Os sintomas geralmente se manifestam em estágios mais avançados e incluem dor abdominal, inchaço, náuseas, perda de apetite e peso inexplicável, cansaço excessivo e icterícia. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de fígado foi o sexto mais mortal entre homens e o sétimo entre mulheres no Brasil em 2020.
O diagnóstico é feito por meio de exames como ultrassonografia ou tomografia, que podem identificar nódulos na região. O tratamento varia e pode incluir cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, dependendo do tamanho e da gravidade do tumor. As chances de cura são maiores quando o câncer é detectado precocemente.
O Inca afirma que, quando o tumor está localizado em uma parte do fígado (tumor primário), a remoção cirúrgica é o tratamento mais indicado, assim como para tumores metastáticos que podem ser ressecados.
Infelizmente, em casos onde a cura não é mais viável, a sobrevida média é de cerca de cinco anos, embora isso possa variar conforme o estágio da doença e a presença de outras comorbidades.
A doença está ligada a fatores metabólicos, como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol elevado. “Pacientes com peso normal também podem apresentar a condição, especialmente se houver predisposição genética”, complementa a hepatologista Bianca.
Ela recomenda que exames para detecção da esteatose sejam realizados anualmente, especialmente em pessoas com fatores de risco. A sensibilidade do ultrassom pode ser limitada para casos leves e em pacientes obesos, onde a ressonância magnética se torna necessária.
Para casos mais complexos, exames como elastografia ou biópsia são utilizados para avaliar a fibrose e o estágio da doença. “Identificar alterações precocemente e acompanhar com um especialista é fundamental para prevenir complicações”, explica Bianca.
Em situações crônicas, a progressão da esteatose pode levar à insuficiência hepática e até à necessidade de transplante, tornando o diagnóstico precoce uma ferramenta essencial para evitar desdobramentos graves.
O tratamento baseia-se na adoção de um estilo de vida saudável. A reeducação alimentar, a prática de atividades físicas e o controle de doenças metabólicas são fundamentais para a recuperação do fígado. “A perda de mais de 10% do peso corporal pode reverter inflamações e reduzir a fibrose, um dos principais avanços negativos da doença”, explica o hepatologista Marcio Dias de Almeida, da Rede D’Or.
Medicamentos são indicados apenas em situações específicas. Recentemente, a FDA aprovou o primeiro medicamento para o tratamento da esteatose metabólica avançada, que deve ser utilizado em conjunto com uma dieta equilibrada e exercícios físicos.
Especialistas reforçam que manter um peso saudável, ter uma alimentação balanceada e limitar o consumo de álcool são medidas simples, mas eficazes para alterar o panorama da doença.
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