Antes de se consolidar como um dos principais pontos culturais de Belo Horizonte, o Centro Cultural da UFMG foi idealizado para ser um hotel de luxo, situado em frente à Estação Central. A trajetória deste edifício, marcada por diferentes administrações, batalhões, salas de aula e períodos de abandono, também reflete a própria evolução da cidade.
A história remonta a 1897, quando Vila Rica deixou de ser a capital de Minas Gerais, dando lugar à nova Cidade de Minas. A escolha de Belo Horizonte como sede administrativa foi marcada por tensões e disputas políticas. Sob a liderança do engenheiro Aarão Reis, a Comissão Construtora da Nova Capital projetou a cidade com influências de Paris e Washington, iniciando um novo capítulo de modernidade urbana no Brasil.
Nesse contexto, o português Antônio Maria Antunes, proprietário do Hotel Antunes em Ouro Preto, enxergou uma oportunidade e decidiu construir um hotel imponente em frente à principal entrada da metrópole, a Estação Ferroviária. Em 1899, o projeto do sobrado eclético foi finalizado, ostentando características neoclássicas que simbolizavam prosperidade e boas-vindas à nova capital.
Entretanto, os altos custos de construção levaram Antunes a vender o prédio ao governo estadual antes da conclusão da obra. Assim, em 1906, após adaptações realizadas pelo engenheiro Honório Soares do Couto, o edifício passou a ser o quartel do 2º Batalhão da Brigada Policial, permanecendo assim até 1911, quando as atividades foram transferidas para Juiz de Fora.
Não demorou para que o edifício fosse novamente utilizado. Em 1912, abrigou a recém-fundada Escola Livre de Engenharia, que adaptou a estrutura para comportar salas de aula e laboratórios, com a contribuição do engenheiro espanhol Emílio Gomes Regatas. Quando a Universidade de Minas Gerais (UFMG) foi criada em 1927, o edifício passou a fazer parte de seu patrimônio, recebendo o nome de Edifício Alcindo da Silva Vieira em homenagem a um dos diretores da Escola de Engenharia e futuro reitor, figura central na construção da Cidade Universitária.
Com a transferência do Instituto de Eletrotécnica para outro local em 1981, o prédio ficou desativado, acumulando danos e sendo esquecido por muitos. Contudo, dentro da UFMG, havia um movimento para reverter essa situação e transformar o espaço em um centro cultural. Essa ideia se concretizou em 1986, quando o Centro Cultural UFMG foi oficialmente fundado. A restauração começou em 1987, e rapidamente atraiu a atenção da comunidade, que viu o casarão ganhar vida novamente.
O reconhecimento do seu valor histórico veio em 1988, quando foi tombado pelo Iepha. No ano seguinte, em 22 de abril de 1989, o espaço reabriu suas portas ao público, oferecendo uma programação diversificada que incluía shows, exposições, performances e até eventos inusitados como aviões da Força Aérea lançando balões e poesias sobre a cidade.
Entre 2006 e 2013, o prédio passou por uma revitalização significativa, que incluiu a renovação da fachada, telhado, pisos, sistema elétrico, iluminação e pintura, garantindo segurança e acessibilidade. Em 2019, o Centro Cultural UFMG celebrou seus 30 anos como um marco de referência artística e histórica, acolhendo projetos que vão desde cinema e dança até fotografia e performances, estabelecendo conexões entre a universidade e a comunidade.
O Centro Cultural UFMG é mais do que um edifício histórico; é um testemunho da formação de Belo Horizonte, dos conflitos políticos de sua época, do surgimento da modernidade urbana e do esforço contínuo para valorizar o patrimônio cultural. Ele se tornou um símbolo de resistência cultural no coração da cidade.