No topo da lateral do Edifício Garagem, situado no centro de Belo Horizonte, uma inscrição que diz “Alforriado Matias, bendito seja lembrado” exalta a memória de um homem cuja trajetória é frequentemente ignorada pela historiografia oficial. Matias, com seu machado, é o protagonista do novo mural criado pelo artista Paulo Nazareth, que integra a 8ª edição do Circuito Urbano de Arte (CURA).
Na segunda metade do século XIX, na área que hoje corresponde ao Barreiro, havia uma fazenda homônima. Nesse local, Matias, um abolicionista que viveu sob a condição de escravizado, assassinou em 1878 o Major Cândido Brochado, seu proprietário e uma figura proeminente do conservadorismo político mineiro. A promessa não cumprida de alforria feita por Brochado a Matias foi o estopim para sua rebelião, culminando no assassinato do opressor. Historiadores afirmam que essa ação não foi um ato isolado de vingança, mas sim parte de uma insurgência coletiva, respaldada, por exemplo, pela rede de informações que mulheres escravizadas mantinham.
Após ser preso e levado para Ouro Preto, que era a capital da província de Minas Gerais naquela época, Matias foi encontrado morto em sua cela pouco depois.
Arte como memória e resistência
O mural idealizado por Paulo Nazareth, natural de Valadares, foi pensado para estabelecer um diálogo com a arquitetura do edifício, cujos frisos lembram as linhas de uma folha de caderno. O artista quis transformar a fachada do Edifício Garagem em uma espécie de folha em branco, simbolizando a necessidade de ensino sobre a história e a cultura afro-brasileiras e dos povos indígenas, temas que, apesar de serem abordados nas leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, ainda são pouco implementados nas escolas.
Não é a primeira vez que Nazareth destaca a figura de Matias como um símbolo de resistência. O abolicionista já havia sido mencionado em exposições como “Pedagogia”, realizada na Faculdade de Educação da UFMG, ao lado de outras figuras negras que se levantaram contra a opressão. Atualmente, o artista também apresenta em São Paulo a exposição “Nazarethana”, que se desdobra em torno das questões tratadas no CURA, abordando a história de sua própria família, marcada por silenciamentos e pela violência psiquiátrica.
CURA
Iniciado por mulheres artistas, o Circuito Urbano de Arte começou sua trajetória em 2017 e se consolidou como um dos maiores festivais de arte pública no Brasil. O projeto promove mesas de debate, feiras, festas e iniciativas que interagem com a arte urbana e a cultura de rua. Confira aqui um mapa com a localização das obras criadas pelo CURA e outras intervenções artísticas em Belo Horizonte.