Um relatório divulgado nesta semana revela que o déficit de financiamento destinado à proteção da biodiversidade mundial quase dobrou nos últimos seis anos, atingindo atualmente a soma de US$ 1,317 trilhão por ano. O estudo, elaborado pelas organizações The Nature Conservancy (TNC), World Wildlife Fund (WWF) e Paulson Institute, intitulado “Financing Nature 2026: uma atualização de meio de década – do progresso isolado à implementação em escala”, traz uma análise detalhada da evolução dos investimentos globais na conservação da natureza desde 2020, momento em que foi publicado o primeiro relatório sobre o tema.
Segundo o levantamento, apesar do aumento na atenção e nos recursos destinados à preservação ambiental, os esforços ainda estão longe de atender às necessidades reais para conter a crise de perda de espécies de fauna e flora. Em 2020, o déficit financeiro era de aproximadamente US$ 711 bilhões, valor que saltou para cerca de US$ 1,317 trilhão neste ano, indicando um crescimento de quase 85% na lacuna de recursos ao longo de seis anos. Essa disparidade evidencia que, apesar de alguns avanços, a escala de investimentos ainda não acompanha a velocidade da deterioração ambiental.
Para os autores do estudo, há mecanismos disponíveis que poderiam ampliar os recursos destinados à conservação, como o mercado de carbono e os chamados Acordos de Financiamento de Projetos para Permanência (PFP, na sigla em inglês). Esses instrumentos têm potencial de impulsionar a criação de áreas protegidas por meio de fundos de transição, que facilitam a implementação de projetos de preservação. Carter Roberts, presidente da WWF nos Estados Unidos, destacou que tais estratégias demonstraram eficácia, mas alertou que sua implementação deve ocorrer em ritmo e escala compatíveis com a gravidade da perda de biodiversidade.
O relatório também aponta uma prática preocupante adotada por muitos países, na qual políticas públicas e subsídios destinam recursos à destruição de habitats naturais, muitas vezes em contraposição às ações de proteção. Para cada dólar investido na conservação, estima-se que 30 dólares sejam destinados à destruição ambiental. Além disso, o estudo revela que, em um único mês, muitos governos gastam mais com subsídios prejudiciais à natureza do que investem na sua preservação ao longo de um ano inteiro.
Henry M. Paulson Jr., presidente do Paulson Institute, reforça a importância da reforma de subsídios públicos, argumentando que a realocação desses recursos pode liberar uma parte substancial do financiamento necessário. Ele destaca que, quando os incentivos governamentais são ajustados de forma adequada, o capital privado tende a seguir essa direção, potencializando os investimentos em conservação.
Com base nos dados coletados ao longo de seis anos, os pesquisadores elaboraram um roteiro de ações prioritárias, que inclui a necessidade de ampliar o envolvimento de governos, órgãos reguladores e instituições financeiras. O documento recomenda que bancos multilaterais de desenvolvimento e instituições financeiras de desenvolvimento utilizem seus instrumentos e balanços para mobilizar recursos adicionais ao setor ambiental. Além disso, o relatório enfatiza que a crescente convergência entre as crises climática e de biodiversidade deve orientar as estratégias de governos, empresas e investidores, de modo a integrar a preservação da natureza aos planos de desenvolvimento sustentável.
Por fim, Jennifer Morris, CEO da The Nature Conservancy, conclui que o estudo demonstra que o mundo já dispõe de evidências sobre o que funciona na proteção ambiental. Ela reforça que o momento é de avançar com base nesses aprendizados, considerando que o mundo não está começando do zero, mas sim construindo a partir de uma década de experiências bem-sucedidas que podem ser ampliadas para enfrentar a crise global de perda de biodiversidade.