O número de pessoas que não vivem em união em Minas Gerais, ou seja, que estão solteiras, viúvas ou divorciadas, cresceu entre 2010 e 2022, segundo os dados mais recentes do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2022, eram 9.035.924 mineiros com 10 anos ou mais nessa condição, contra 8.729.676 registrados em 2010.
O contingente representa quase 50% da população de Minas Gerais, que, de acordo com a pesquisa, era de 20.539.989 habitantes na época. Os números revelam mudanças na forma como os relacionamentos são construídos no estado. Segundo a psicologia, esse cenário pode ser explicado pelas transformações nas dinâmicas afetivas observadas nos últimos anos.
“Hoje estamos vivendo uma transformação nos relacionamentos. Antigamente, era quase obrigatório que, em determinada idade, a pessoa já estivesse casada. Hoje não. As pessoas estão dando mais foco ao desenvolvimento pessoal, à independência financeira e só depois pensam em ter uma relação séria”, explicou a psicóloga Juliana Pereira, especializada em terapia de casal, psicologia clínica e dependência afetiva.
Apesar do avanço do número de pessoas que não vivem em união, os dados mostram que os relacionamentos continuam fazendo parte da vida de milhões de mineiros. Em 2010, 8.161.305 pessoas viviam em união no estado. Em 2022, esse número subiu para 9.051.104.
Para a especialista, os números indicam menos uma rejeição aos relacionamentos e mais uma transformação na forma como eles acontecem.
“Sem dúvida, as redes sociais e os aplicativos vieram para ajudar as pessoas. Hoje você não precisa sair de casa para conhecer alguém. Pelo telefone, consegue se conectar com outras pessoas, o que gera possibilidades de conversa, novas experiências e tentativas de encontrar alguém com interesses semelhantes aos seus”, afirmou Juliana.
Um post compartilhado por Rádio Itatiaia (@itatiaiaoficial)
Para além dos números, a realidade dos mineiros sem parceiro é diversa. Gabriele Vilela, de 18 anos, disse à Itatiaia que namorar não é sua prioridade neste momento, pois quer focar nos estudos para ingressar no curso de Medicina. “Eu quero um curso muito difícil na Federal, e o estudo demanda muito tempo. Não dá para dividir tanto o tempo”, disse a estudante.
Já Gabriela Costa, de 33 anos, afirmou que tem encontrado dificuldades para encontrar um parceiro. “Eu sou solteira e, para mim, está impossível engatar um namoro. Acho que não tem homens héteros disponíveis no mercado. Estou solteira por opção dos outros”, brincou a profissional de turismo, em tom descontraído. “Eu nem sei mais o que fazer para mudar isso. Se alguém puder me ajudar, a mim e às minhas amigas, que estão todas solteiras, eu agradeço”, acrescentou, em tom de brincadeira.
Marlon Henrique, de 20 anos, afirmou que está solteiro por opção e tem dedicado seu tempo aos estudos. Militar do Exército Brasileiro, ele está sem namorar há cerca de um ano e meio. “Estou estudando para um concurso e preciso ter foco total. Se eu começar a namorar, vai tirar um pouco dessa atenção. É bom namorar, mas o nosso futuro vem primeiro. Então, só daqui a alguns anos vou pensar em firmar um relacionamento e casar”, destacou.
Enquanto algumas pessoas optam por permanecer solteiras, outras mantêm relacionamentos duradouros. É o caso de Geovana e James Jardim, que namoraram por quatro anos e se casaram há menos de uma semana. A arquiteta contou à reportagem que o relacionamento começou de forma natural. “A gente começou muito amigos. Foi uma amizade que acabou virando namoro e, depois, casamento”, relatou.
Já James, que é geólogo, destacou a conexão construída ao longo dos anos. “Eu nunca tinha conhecido alguém que demonstrasse algo tão recíproco. A gente foi se aproximando rapidamente e agora completamos quase quatro anos de namoro e poucos dias de casados”, afirmou.
Sobre o Dia dos Namorados, o casal disse que prefere comemorar antes ou depois da data oficial. “A gente nunca comemorou no dia. É tudo muito cheio e a gente não gosta. Nunca fomos de fazer programas muito românticos; preferimos conhecer lugares novos. Mas nunca no Dia dos Namorados, sempre no fim de semana anterior ou no seguinte”, contou Geovana.
“Para ser sincero, antes eu achava a data uma besteira. Mas, depois de conhecê-la, entendi que datas importantes são necessárias. Caso contrário, tudo acaba passando batido. Acho que faz bem para a relação”, completou o geólogo.
As pessoas, especialmente as mulheres, também buscam mais autonomia e independência atualmente. Mudanças nas expectativas sobre o amor, o aumento das separações e as novas configurações familiares ajudam a explicar o cenário observado pelo Censo.
A médica Rosânia Aparecida, de 53 anos, diz ser uma “solteira feliz”. “Não por convicção, mas por circunstância. Ainda assim, estou aproveitando a solteirice. Estar solteira tem seus benefícios e vantagens: autonomia, liberdade para ir e vir sem dar satisfação e escolher os próprios caminhos sem precisar compartilhar decisões. Embora a vida a dois também tenha suas vantagens”, declarou. “Aproveito a solteirice da mesma forma que aproveitaria a vida de casal. Dá para viver bem e ser feliz nos dois cenários”, refletiu.
Seja solteiro, em um relacionamento duradouro ou em busca de novas conexões, os mineiros parecem refletir uma tendência cada vez mais presente no país: a de que não existe apenas uma forma de viver a vida afetiva. Os números mostram que os relacionamentos continuam relevantes, mas também indicam que as trajetórias amorosas estão se tornando mais diversas e menos ligadas aos modelos tradicionais.