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Brasil já fez mudanças importantes na educação – e sabe o que falta para uma transformação completa

Foto:Tiago Queiroz/Estadão

Consenso. Felizmente essa virou uma palavra comum no ensino público brasileiro. O próximo governo do Brasil não herdará uma educação sem rumo. Pelo contrário. O País talvez nunca tenha sabido tanto o que precisa ser feito. Depois de décadas de disputas, concorda-se que é preciso alfabetizar todas as crianças na idade certa, melhorar a formação de professores, fortalecer avaliações, ampliar o ensino técnico, enfrentar desigualdades históricas.
Em muitas turmas do País, há alunos separados por quatro ou cinco anos de defasagem de aprendizagem. Um professor do 9º ano precisa ensinar simultaneamente alunos que mal dominam habilidades esperadas dos primeiros anos do fundamental, outros que estão em um meio termo e um grupo daqueles mais próximos do currículo previsto. E isso não só por causa da pandemia, é um desafio estrutural de uma rede pública grande e desigual como a brasileira.
Sem uma política séria de recomposição da aprendizagem, especialmente voltada aos alunos que ficaram para trás, dificilmente haverá melhora consistente dos resultados. E se a aprendizagem precisa ser o centro, há duas perguntas desconfortáveis.
A primeira é se estamos conseguindo medir direito o que os estudantes aprendem. O Brasil construiu um sistema de avaliação robusto; Ideb e Saeb ajudaram a iluminar desigualdades, pressionar redes por resultados e criar uma cultura de monitoramento antes inexistente.
Mas especialistas vêm alertando para sinais de desgaste: avaliações só baseadas em múltipla escolha, baixa exigência em parte dos itens e uma capacidade limitada de medir competências mais complexas — além do risco de escolas treinarem seus alunos para melhorar resultados sem necessariamente aprofundar aprendizagem.
A segunda pergunta diz respeito aos professores: como melhorar a qualidade da aprendizagem se boa parte dos docentes sequer está sendo formada adequadamente para ensinar?
Dados recentes da Prova Nacional Docente mostraram que mais de um terço dos professores avaliados não atingiu o nível considerado básico para dar aulas. Ao mesmo tempo, o exame que avaliou as licenciaturas revelou que mais de 60% dos cursos a distância – algo que se proliferou no País nos últimos anos – receberam as piores notas.
É talvez o problema mais difícil de enfrentar porque exige transformar uma profissão profundamente desvalorizada – que acolhe, pela facilidade do ingresso e valor irrisório das mensalidades, os alunos menos preparados do ensino médio – em algo que a juventude deseja e a sociedade admira. E também rever um sistema universitário que há anos produz resultados insuficientes.
Não demos ainda o salto esperado nas escolas, portanto, não por falta de soluções, mas por falta de uma vontade política generalizada. Como disse o CEO da Fundação Lemann, Denis Mizne, no Brasil Adiante, evento promovido pelo Estadão para apresentar propostas concretas para os principais problemas do País, é preciso ter “lideranças obcecadas em resolver o problema da educação”. Foi assim na Coreia, em Cingapura e em outros tantos lugares que hoje miramos como exemplo.
“Nenhum país se arrependeu de priorizar a educação”, completou a presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, no mesmo debate. A frase pode soar óbvia, mas não foi ainda plenamente compreendida no Brasil. Porque educação pública de qualidade é condição para desenvolvimento econômico, aumento de produtividade, redução da desigualdade e formação de trabalhadores capazes de lidar com um mundo cada vez mais tecnológico e exigente.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade