Quinze anos atrás, os bilionários do mundo tinham coletivamente US$ 4,5 trilhões.
Os números impressionantes — calculados pelo economista francês Gabriel Zucman, diretor do Observatório Tributário Internacional, uma organização de pesquisa financiada pela União Europeia — revelam mais do que um aumento surpreendentemente rápido na concentração de riqueza no topo da pirâmide social.
Elas também refletem uma série de tendências globais importantes: o crescente domínio de algumas poucas empresas de tecnologia liderando o desenvolvimento da inteligência artificial; a fatia cada vez menor da economia destinada aos trabalhadores; e o aprofundamento da desigualdade que será transmitida para a próxima geração.
Esses acontecimentos são particularmente relevantes nos Estados Unidos, onde reside aproximadamente um terço dos quase 3 mil bilionários do mundo — e talvez o primeiro trilionário, Elon Musk, dependendo do resultado da oferta pública inicial de ações de sua empresa de foguetes e satélites, a SpaceX, na sexta-feira, 12.
O aumento de sua riqueza, um crescimento de 40% em apenas dois anos, coincidiu com mudanças significativas nas leis tributárias dos EUA na última década, que beneficiaram amplamente as famílias e acionistas mais ricos do país e levaram a um aumento de sua influência política.
Uma das razões para o súbito crescimento no topo da escala de riqueza é o boom da inteligência artificial, que canalizou trilhões de dólares em investimentos para um pequeno grupo de empresas de tecnologia. Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Meta e Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation, por exemplo, valem mais de US$ 1 trilhão cada. Seus fundadores e investidores iniciais colheram a maior parte dos lucros.
Podemos ver isso acontecendo com a oferta pública inicial (IPO) da SpaceX — que promete ser a maior da história. A avaliação esperada da empresa no primeiro dia, cujas ações devem começar a ser negociadas na sexta-feira, é de US$ 1,77 trilhão. Com 42% das ações, Musk está prestes a se tornar um trilionário instantaneamente.
É difícil conceber somas tão vastas. Mas considere que apenas 21 países no mundo têm economias capazes de produzir anualmente o suficiente para atingir a marca de um trilhão de dólares.
É no mercado de ações que grande parte da alquimia dos bilionários acontece. Os lucros exorbitantes das ações foram desproporcionalmente apropriados pela parcela mais rica da população. Sim, você pode ter participação nos preços das ações se tiver um plano de aposentadoria 401(k), que é o principal plano de previdência privada corporativa dos Estados Unidos. E essas reservas ajudarão a pagar moradia, alimentação, carro, gasolina, luz e outras contas quando você parar de trabalhar.
Mas, de acordo com dados do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), é o 1% mais rico dos americanos que detém metade de todas as ações. Os 0,1% mais ricos dos americanos — um grupo de cerca de 135 mil famílias — têm ações que totalizam US$ 13,7 trilhões. Isso é quase o dobro dos US$ 7,1 trilhões detidos pelos 90% mais pobres dos americanos, um grupo de cerca de 115 milhões de famílias.
As empresas de tecnologia que desempenham um papel desproporcional na geração desses retornos criaram empregos — mas, até agora, o número de funcionários é relativamente pequeno. Os retornos dos bilionários são baseados em investimentos de capital muito mais do que nos funcionários dessas empresas.
Essas empresas alteraram o equilíbrio de poder na economia, permitindo que os proprietários, em vez dos trabalhadores, abocanhem a maior parte dos lucros.
Medir a desigualdade é difícil. Há muito debate sobre a dimensão exata da diferença entre os que têm mais e os que têm menos, bem como sobre o grau em que a participação da mão de obra na riqueza diminuiu. Mas existe um consenso geral entre os economistas que estudam o assunto de que os mais ricos estão se distanciando dos demais em um ritmo mais acelerado do que antes.
Nos Estados Unidos, as mudanças nas leis tributárias nos últimos 10 anos direcionaram mais benefícios para a parcela mais rica das famílias, reduzindo o valor dos impostos que elas precisam pagar.
Uma redução drástica na taxa de imposto corporativo impulsionou enormemente a riqueza dos ultrarricos, permitindo-lhes dobrar seus ganhos, à medida que as empresas usam os lucros aumentados para recomprar suas ações.
A redução dos impostos devidos por empresas e pessoas ricas aumenta a carga tributária sobre os trabalhadores, que pagam tanto imposto de renda quanto imposto sobre a folha de pagamento — dois tipos de impostos que mal arranham a riqueza dos bilionários. Também reduz a receita pública disponível para financiar saúde, educação, defesa, infraestrutura e outros benefícios sociais em um momento em que os governos estão profundamente endividados.
As fortunas exorbitantes despertaram algum apoio político para a tributação da riqueza. A ideia foi acolhida na Conferência Global sobre Desigualdade, em Paris, na semana passada. As propostas de tributação da riqueza têm sido debatidas com maior seriedade na França, mas também na Alemanha, Grã-Bretanha, Brasil e Estados Unidos.
Na Califórnia, onde vivem mais de 200 bilionários, líderes sindicais ajudaram a incluir o Projeto de Lei do Imposto sobre Bilionários de 2026 na cédula eleitoral de novembro. Ele imporia um imposto único de 5% sobre o patrimônio líquido de um bilionário.
A métrica, elaborada com a contribuição de Zucman e Emmanuel Saez, outro economista que tem estado na vanguarda da pesquisa sobre riqueza e desigualdade globais, baseou-se em cálculos que constataram que a riqueza dos bilionários da Califórnia ultrapassa os 2 trilhões de dólares atualmente — um valor equivalente à metade de toda a produção econômica da Califórnia em um ano. De 2023 a 2025, a riqueza dos bilionários do Estado cresceu 144%.
Eles destacam que o crescente poder financeiro e político de algumas centenas de indivíduos contribui para uma desigualdade cada vez maior, que provavelmente persistirá por gerações, porque a maior parte dessa riqueza escapa da tributação, criando uma aristocracia que se perpetua.
Como escreveu Dario Amodei, o bilionário CEO da Anthropic, criadora do chatbot Claude, este ano: “Já atingimos níveis de concentração de riqueza sem precedentes na história”, acrescentando que “o que deve nos preocupar é um nível de concentração de riqueza que leve a sociedade à ruína”.