Nesta terça-feira (10), o Grupo Pão de Açúcar (GPA) anunciou que firmou um acordo com seus principais credores e apresentou um plano de recuperação extrajudicial. Essa modalidade de recuperação permite que a empresa renegocie uma parte de suas dívidas diretamente com os credores, sem a intervenção do sistema judiciário, com o intuito de obter melhores condições de pagamento e mais tempo para ajustar suas finanças, evitando assim a falência.
Durante esse processo, as operações da empresa continuam normalmente. O GPA conseguiu renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas sem precisar recorrer à recuperação judicial, que é um procedimento mais longo e complicado, envolvendo todos os credores. Essa recuperação extrajudicial tem efeito imediato e um prazo inicial de 90 dias, mas não inclui dívidas com fornecedores, parceiros, clientes e obrigações trabalhistas.
Além das marcas Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar e Pão de Açúcar Fresh, o GPA também controla as bandeiras Extra e Mini Extra, além de comercializar produtos de suas marcas próprias, como Qualitá, Taeq, Pra Valer e Club des Sommeliers.
### Compreendendo a crise no Grupo Pão de Açúcar
Desde 2022, o Grupo Pão de Açúcar tem enfrentado prejuízos anuais, consequência de diversos fatores que impactaram seus resultados financeiros. Entre os principais desafios estão:
– A diminuição do consumo, especialmente em períodos de alta inflação nos alimentos;
– Os juros elevados, que aumentaram o custo do endividamento;
– Gastos relacionados a mudanças na gestão;
– Pagamentos de dívidas fiscais e trabalhistas;
– Perdas decorrentes de lojas com baixo desempenho.
Recentemente, a companhia gerou preocupação no mercado financeiro ao indicar, em seu balanço trimestral, incertezas sobre sua capacidade de manter as operações a longo prazo. No final do ano passado, o GPA reportou um déficit de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, em grande parte devido a empréstimos e títulos que vencem em 2026. Apesar de algum progresso nos resultados, a empresa continuou a registrar prejuízos.
De acordo com a empresa, “essas condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”, conforme expresso em um comunicado divulgado no final de fevereiro.
A empresa também mencionou que já estava implementando ações para:
– Reduzir riscos operacionais, incluindo negociações com credores para alongar os prazos das dívidas;
– Diminuir despesas e custos com juros;
– Converter créditos tributários em liquidez para fortalecer o caixa.
### Mudanças na gestão da empresa
No último ano, o GPA passou por importantes transformações, com o Grupo Coelho Diniz se tornando o principal acionista, detendo 24,6% das ações. O grupo francês Casino, que antes controlava a empresa, possui atualmente 22,5%. Em outubro, André Coelho Diniz foi eleito presidente do conselho de administração, e na sequência, Marcelo Pimentel, que ocupava o cargo de presidente-executivo desde 2022, renunciou. Em 2026, Alexandre de Jesus Santoro assumiu a posição de diretor-presidente da companhia.
No ano de 2025, a empresa reportou um prejuízo líquido de cerca de R$ 651 milhões nas operações continuadas, encerrando o ano com uma dívida líquida de R$ 2 bilhões e uma dívida bruta de R$ 4 bilhões. Nos últimos 12 meses, as ações do GPA, sob o código PCAR3, apresentaram uma valorização de 9,64%.
Atualmente, o grupo opera 728 lojas no Brasil, incluindo 187 Pão de Açúcar, 164 Extra Mercado, 155 Mini Extra e 221 Minuto Pão de Açúcar.
### Como será a recuperação extrajudicial do GPA?
O plano de recuperação foi aprovado por unanimidade pelo conselho de administração e já conta com o respaldo dos credores que detêm 46% dos valores envolvidos, cerca de R$ 2,1 bilhões, superando o mínimo exigido pela legislação para iniciar esse tipo de negociação. O acordo prevê a suspensão temporária do pagamento dessas dívidas enquanto a empresa busca novas condições. O objetivo é firmar um acordo com a maioria dos credores para resolver a questão do endividamento.
Em comunicado ao mercado, o GPA afirmou que essa iniciativa visa aprimorar o perfil da dívida e fortalecer o balanço, criando condições para resolver problemas de liquidez a curto prazo e garantir a sustentabilidade financeira a longo prazo. A empresa assegurou que as operações seguem normalmente e que está em dia com os pagamentos a fornecedores e parceiros comerciais.
De acordo com o GPA, o plano foi estruturado para manter o funcionamento do negócio enquanto as negociações com os credores avançam. A advogada Patricia Maia, do Barbosa Maia Advogados, observou que muitas empresas brasileiras estão buscando reestruturar dívidas devido ao aumento dos custos de crédito e à pressão sobre os lucros.
“Nos últimos anos, muitas companhias têm lidado com dívidas mais onerosas, uma redução do consumo em certos setores e a necessidade de reorganizar suas operações. A recuperação extrajudicial surge como uma alternativa eficaz para isso, sem interromper as atividades”, explicou. No entanto, ela ressaltou que a reestruturação pode impactar os consumidores, influenciando a disponibilidade de produtos, políticas de preços ou o ritmo de expansão da própria empresa.
Para mais informações, confira a reportagem abaixo.
* Com informações da agência de notícias Reuters.