O Ministério da Justiça enviou um ofício ao TikTok nesta terça-feira (10), exigindo uma explicação em um prazo de cinco dias sobre a trend “se ela disser não”. Nessa tendência, homens representam ações agressivas contra mulheres, caso estas recusem pedidos de casamento. O ministério esclarece que a responsabilidade do TikTok vai além da remoção de conteúdos específicos requeridos pela Polícia Federal (PF); a plataforma deve agir para eliminar imediatamente qualquer material relacionado, independentemente de solicitações.
“O amplo compartilhamento dos conteúdos dessa trend levanta questões sobre o cumprimento das responsabilidades de cuidado mencionadas, especialmente a possibilidade de falhas sistêmicas”, argumenta o ofício, assinado por três secretários do ministério: Victor Fernandes, de Direitos Digitais; Francisco Veloso, de Segurança Pública; e Osny Filho, do Consumidor.
O governo solicita, inicialmente, uma descrição pormenorizada das ações técnicas e organizacionais que o TikTok adota para identificar e remover proativamente conteúdos misóginos. Dentro desse escopo, a plataforma deve esclarecer se possui sistemas automatizados para moderação e análise de tendências emergentes que possam conter material ilícito.
Além disso, o Ministério da Justiça quer saber se os mecanismos de recomendação e os algoritmos de promoção de conteúdo foram avaliados quanto ao risco de amplificação de materiais misóginos. Por fim, o governo pede informações sobre possíveis monetizações dos conteúdos excluídos ou sobre compensações relacionadas ao alcance, como patrocínios ou anúncios.
O TikTok afirmou que já tomou medidas proativas, iniciando a remoção dos vídeos no último fim de semana. Segundo a plataforma, quando a PF apresentou a lista de conteúdos em investigação na segunda-feira, a maior parte já havia sido retirada por violar as diretrizes da comunidade. Os links restantes foram excluídos no mesmo dia, e a empresa mantém total colaboração com as autoridades.
Em nota ao g1, o TikTok declarou: “Os conteúdos mencionados vão contra nossas Diretrizes da Comunidade e foram removidos assim que identificados. Nossa equipe de moderação continua vigilante e dedicada a identificar possíveis materiais que infringem nossas normas. Não toleramos discursos de ódio ou comportamentos que promovam ideologias de ódio. Nossa prioridade é garantir a segurança da comunidade, e seguimos investindo em medidas eficazes para fortalecer essa proteção.”
Entenda o contexto: A trend “treinando caso ela diga não” tem ganhado destaque nas redes sociais nas últimas semanas. Nos vídeos, os criadores encenam abordagens românticas, geralmente envolvendo pedidos de namoro ou casamento, seguidas pela frase “treinando caso ela diga não” ou variações. Após essa legenda, os autores representam reações violentas à rejeição, que em muitos casos incluem simulações de socos, movimentos de luta ou até uso de facas.
Uma análise do g1 revelou vinte vídeos postados entre 2023 e 2025, com perfis variando de 883 a 177 mil seguidores, acumulando mais de 175 mil interações. Conforme informações do blog da Julia Duailibi, a Polícia Federal já excluiu perfis e instaurou um inquérito para investigar os vídeos que simulam agressões contra mulheres.
Esse fenômeno ocorre em um cenário alarmante de aumento de feminicídios e violência contra mulheres no Brasil, que registrou um número recorde de 1.470 casos de feminicídio em 2025, de acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Esse total supera os 1.464 casos do ano anterior, que até então eram o maior índice registrado. Em média, isso resulta em quatro mulheres assassinadas diariamente no país no ano passado. A simplicidade do formato facilitou a replicação do conteúdo, com muitos vídeos utilizando a mesma frase e pequenas variações nas encenações, algo comum em tendências virais da plataforma. Apesar de a tendência ter ressurgido entre criadores brasileiros no final de 2025, registros desse tipo de vídeo já estão presentes nas redes desde pelo menos 2023.