“Estamos de volta ao jogo”. Assim o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel (Abics), Aguinaldo Lima, descreve essa terça-feira (24), data em que o aumento tarifário dos EUA sobre uma grande parte dos produtos brasileiros deixa de ser aplicável, em razão de uma decisão da Suprema Corte americana na última sexta-feira (20).
Os principais produtos exportados pelo Brasil para os EUA, como a carne bovina e o café em grão, já estavam isentos desse aumento tarifário desde o final do ano passado. No entanto, itens como café solúvel, mel, frutas e pescados ainda enfrentavam sobretaxas que variavam de 10% a 40%.
Logo após a decisão da Suprema Corte, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma tarifa global de 10%, que foi elevada para 15% no dia seguinte, e entrará em vigor nesta terça-feira. Apesar desse novo cenário, os setores afetados pelas sobretaxas mantêm sua esperança.
Renato Azevedo, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), observa que a tarifa sobre o mel brasileiro nos EUA era mais alta em comparação com a de outros concorrentes. “Agora, a tarifa é de 15% para o mel de todos os países. E se é igual para todos, não temos preocupações, pois nosso mel é muito competitivo”, assegura.
➡️Vale ressaltar que nem todos os segmentos do agronegócio serão impactados pela nova tarifa global de Trump. Carne bovina, café em grão e suco de laranja permanecem isentos, conforme decisão da Casa Branca divulgada na sexta-feira.
A seguir, confira como os setores ainda impactados pelas sobretaxas estão se preparando para a nova realidade tarifária e a transição para a taxa de 15%.
🍯Mel🐟Pescados☕Café Solúvel🍇Frutas
🍯Exportadores de mel esperam reativar contratos
O setor apícola brasileiro é composto majoritariamente por pequenos produtores que, para exportar, vendem suas produções para empresas de comércio exterior. Azevedo revela que as empresas já reestabeleceram o diálogo com clientes americanos, e há expectativas de que os contratos sejam reativados a partir de março. “O mel que exportamos para os EUA é orgânico, e não há concorrente global que consiga fornecer na mesma escala que nós. Portanto, com tarifas iguais para todos, estamos em vantagem”, afirma o presidente da Abemel.
Após o aumento tarifário, o setor conseguiu exportar o volume previamente acordado em contratos, mas não conseguiu firmar novos acordos, explica Azevedo. “Enfrentamos sérios problemas de escoamento e desvalorização do mel na produção. A colheita atrasou devido ao clima e, quando ficou pronta, o mercado estava bloqueado pelas altas tarifas”, enfatiza. “Muitos produtores operaram com prejuízo, tentando vender mel no mercado interno, mas o Brasil não tem capacidade para absorver todo o volume”. “Cerca de 80% das exportações brasileiras de mel são destinadas aos Estados Unidos, tornando impossível substituir rapidamente esse mercado por outros países”, complementa.
Azevedo também expressa preocupação de que o consumidor americano pudesse optar pelo mel tradicional de outros países em vez do mel orgânico brasileiro, uma vez que os EUA já estavam importando de outros mercados. “Agora, a situação mudou, e estamos mais otimistas”, conclui.
🐟Setor de pescados prevê reabertura de postos de trabalho
O setor de pescados demonstra otimismo ao se afastar da tarifa de 50% e enfrentar a nova taxa de 15%, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca). Os EUA representam um mercado crucial para o segmento, tendo adquirido quase metade de todo o pescado brasileiro exportado em 2024, conforme dados do governo federal. Ademais, os EUA são os principais compradores da tilápia, o pescado brasileiro mais exportado em volume.
A tarifa de 50% resultou na perda de contratos internacionais, redução da produção e cortes de empregos, segundo Eduardo Lobo, presidente da Abipesca. Com a nova tarifa de 15%, as perspectivas são muito mais positivas. “A expectativa da entidade é que a normalização parcial das condições comerciais permita a recuperação do crescimento já em 2026, com a previsão de reabertura de mais de 5 mil postos de trabalho e a recomposição da capacidade produtiva do setor”, afirma a Abipesca.
Nesse contexto, a entidade projeta que as “exportações brasileiras de pescado atinjam cerca de US$ 600 milhões no mercado global, com destaque para a tilápia, o principal produto embarcado para os EUA”. Além disso, a nova tarifa de 15% tornará o pescado brasileiro, especialmente a tilápia, mais competitivo no exterior, segundo Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura, a Peixes Br. “Isso ocorre porque nosso principal concorrente, a Colômbia, agora enfrentará a mesma taxa que o Brasil”, explica.
☕Café solúvel ‘retorna ao jogo’
Para a indústria de café solúvel, o fim do tarifaço de 50% representa um “alívio” após seis meses consecutivos de quedas nas exportações, de acordo com o diretor-executivo da Abics, Aguinaldo Lima. “Os Estados Unidos são o maior consumidor do café solúvel brasileiro há mais de 60 anos. […] Durante o período de agosto a janeiro do tarifaço, o volume das exportações caiu 50%, e as perdas aumentaram mês a mês”, observa.
Lima ressalta que, assim como os exportadores de mel, a nova tarifa global de 15% imposta por Trump coloca o Brasil em igualdade de condições com outros concorrentes. “Estamos de volta ao jogo. É como se agora não houvesse tarifa para ninguém. Com todos no mesmo nível, entramos com as mesmas condições de competitividade”, comenta.
“Durante o tarifaço, o volume dos contratos foi reduzido e alguns foram efetivamente cancelados. Como os importadores americanos não conseguiam arcar com os custos adicionais da taxação do produto brasileiro, eles recorriam a concorrentes, como México, Colômbia, Vietnã, Equador e alguns países europeus”, explica Lima. “Agora, a expectativa é retomar os contratos. As empresas brasileiras e os clientes americanos se comunicam diariamente, e alguns mantêm laços de amizade, devido à natureza de longo prazo dessa relação comercial.”
O diretor destaca que não houve demissões durante o período do tarifaço. O setor é composto por seis grandes empresas, e o fato de elas atuarem em mais de 100 países ajudou a equilibrar as perdas no mercado americano.
🍇Uva em compasso de espera
As frutas mais exportadas pelo Brasil para os EUA são manga e uva. A manga já havia sido isenta no final do ano passado, mas também enfrentará a tarifa de 15% a partir de hoje, explica o diretor-executivo, Eduardo Brandão. Já a uva, que estava sujeita a uma sobretaxa de 50%, será beneficiada com a decisão da Suprema Corte dos EUA, resultando em uma redução para 15%, o que traz alívio ao setor.
Apesar disso, Brandão informa que ainda não há notícias sobre a retomada de contratos. “Tanto os produtores do Vale do São Francisco quanto os distribuidores e parceiros americanos estão aguardando uma definição mais clara da situação antes de reabrirem as negociações e contratos”, afirmou. A uva foi o produto mais afetado pelo “tarifaço”, com uma redução de 73% no volume enviado para os EUA em 2025, segundo Brandão. “Alguns envios foram realizados porque estavam programados e não queríamos perder o cliente. Então, mesmo com perdas, seguimos enviando”, conclui Brandão.
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