A escola de samba Acadêmicos de Niterói apresentou na Marquês de Sapucaí um enredo que parecia uma peça de marketing político encomendada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O samba, com ares de jingle eleitoral, contava com o tradicional “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” e trazia versos que mencionavam o número do PT, além de expor as principais bandeiras de campanha do petista e críticas a seus adversários.
Se a intenção era provocar polêmica, definitivamente foi alcançada. No entanto, a estratégia não trouxe os resultados esperados para Lula; pelo contrário, teve um efeito adverso. A Acadêmicos de Niterói terminou na última colocação do Grupo Especial do carnaval carioca e foi rebaixada. Agora, a escola terá que prestar esclarecimentos à Justiça devido a acusações de campanha antecipada, levantando questionamentos sobre o financiamento do desfile. Para o presidente Lula, surgiram pelo menos cinco problemas políticos a serem enfrentados:
1. Rompeu laços com a comunidade evangélica;
2. Afastou o agronegócio da base aliada;
3. Criou mais um atrito com uma ala do MDB;
4. Deu espaço para o adversário Flávio Bolsonaro criticar o PT no Tribunal Superior Eleitoral;
5. Tornou Lula alvo de uma avalanche de comentários negativos nas redes sociais.
Uma pesquisa da Ativaweb DataLab revelou que 54,7% das menções a Lula nas plataformas Facebook, Instagram, X e TikTok, entre a última sexta-feira (13) e esta quarta-feira (18), foram negativas. A ala “Família na Lata” do desfile, que criticou as famílias conservadoras, se tornou o assunto principal na terça-feira. Em um momento em que o presidente buscava se reaproximar do eleitorado religioso, as Frentes Parlamentares Católica e Evangélica no Congresso declararam que o desfile em homenagem a Lula desrespeitou a fé cristã e que tomariam medidas legais.
No documento apresentado à comissão organizadora do evento, a escola incluiu representantes do agronegócio, simbolizados por um fazendeiro, em uma ala denominada “neoconservadores em conserva”.
O desfile também complicou as negociações eleitorais entre o PT e o MDB. A ala majoritária do partido, já relutante em apoiar Bolsonaro em 2026 por questões pragmáticas, ganhou um “motivo extra” para se afastar da candidatura petista, especialmente após a escola levar à avenida uma representação do ex-presidente Michel Temer estilizado roubando a faixa da ex-presidente Dilma Rousseff.
Ademais, a apresentação ofereceu à oposição a oportunidade de questionar no Tribunal Superior Eleitoral sobre propaganda antecipada e abuso de poder econômico, além de fortalecer o discurso de Flávio Bolsonaro, que argumenta que seu pai, Jair Bolsonaro, foi excessivamente punido pelo TSE.
A situação do presidente Lula não é mais grave, pois o Planalto orientou a cautela dele e de seus ministros durante o desfile. Caso contrário, a possibilidade de um movimento coordenado para comprometer sua candidatura à reeleição seria quase certa. Já a Acadêmicos de Niterói, fundada em 2018 e que subiu para a elite em 2025, não parece ter agido com prudência, permanecendo apenas um ano na categoria principal. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)