A recente decisão do Senado Federal brasileiro de estabelecer um grupo de trabalho para monitorar o Acordo Mercosul-União Europeia vai além de um simples procedimento formal. Trata-se de um sinal político que demonstra um compromisso com o futuro, além da responsabilidade de transformar um acordo negociado em ações concretas. A mensagem é clara: chegou o momento de agir, deixando para trás a era do papel.
Um erro comum na percepção brasileira sobre a Europa é enxergá-la apenas como uma vitrine, e não como um território a ser explorado. A conversa gira em torno da importação de vinhos, chocolates, queijos e marcas de luxo, como se o papel do Brasil fosse apenas consumir o que a Europa oferece de melhor. Essa visão é limitada, defensiva e, no contexto geopolítico atual, um equívoco.
Existem reais oportunidades para a produção na Europa. O Brasil pode agregar valor, criar produtos de luxo, desenvolver design, alimentos premium e tecnologia cultural, utilizando seu capital, criatividade e inteligência. O fluxo deve ser do Brasil para o mercado europeu… e para o mundo.
A União Europeia não é apenas um vasto mercado; é um sistema regulatório avançado, uma plataforma de legitimidade global e um símbolo de civilização. Produzir nesse espaço significa ter acesso a cadeias de valor globais com um nível superior de confiança, previsibilidade jurídica e reputação internacional. Para os empresários brasileiros, essa realidade muda completamente o jogo.
Ao contrário dos Estados Unidos e, especialmente, da China, a Europa não impõe ao Brasil uma escolha identitária desconfortável. A relação não é assimétrica, baseada em poder coercitivo, nem um jogo de dependência tecnológica. Trata-se de uma conexão culturalmente próxima, com laços históricos, que é, acima de tudo, compatível com o momento civilizatório que vivemos.
Em um mundo saturado de excessos, velocidade desenfreada e conflitos constantes, a Europa oferece algo raro: uma rica densidade histórica, uma institucionalidade sofisticada e uma valorização do intangível.
É nesse contexto que Portugal se torna uma porta estratégica. Portugal possui um conhecimento profundo do mercado europeu, entende as exigências regulatórias e compartilha com o Brasil uma cultura que minimiza ruídos, acelera decisões e gera confiança. Para as empresas brasileiras, estabelecer-se, produzir ou co-produzir em Portugal não é um desvio, mas sim um caminho inteligente.
O novo cenário geopolítico abre uma oportunidade singular para o Mercosul, especialmente para o Brasil. Uma oportunidade que será aproveitada por aqueles que agirem primeiro. Aqueles que compreendem que o acordo não representa o fim da jornada, mas sim o início de uma presença econômica brasileira mais madura, sofisticada e menos dependente da mera exportação de volume.
As empresas que estiverem prontas para agir quando o acordo começar a surtir efeito — dois meses após a ratificação por parte de cada governo — estarão em vantagem. Aqueles que já tiverem uma presença estabelecida na Europa, que já dominarem a linguagem do mercado e que transformarem a proximidade cultural em uma vantagem competitiva, sairão ganhando. O momento é agora. E, pela primeira vez em muito tempo, o caminho mais evidente é também o mais inteligente.