O empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, divergiram em suas declarações durante uma acareação realizada pela Polícia Federal (PF) no final de dezembro, a respeito da origem das carteiras de crédito que foram vendidas pelo Master ao banco estatal. Os vídeos das declarações foram divulgados pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (29).
A controvérsia gira em torno da origem dos papéis que foram vendidos ao BRB. Enquanto Vorcaro afirma não ter conhecimento de que a transação envolvesse títulos da empresa Tirreno, posteriormente desvalorizados, e que a negociação contemplava apenas carteiras de terceiros, Paulo Henrique Costa sustenta que o Master indicou que os papéis pertenciam ao próprio banco.
Durante a acareação, Vorcaro refutou ter mencionado que os créditos provinham da Tirreno ou do Master, garantindo que apenas comunicou uma mudança na abordagem comercial, que passou a incluir a venda de carteiras oriundas de terceiros. “Na realidade, nós anunciamos que faríamos vendas de originadores terceiros. Eu, na verdade, nem sabia da existência da Tirreno naquela época. Discutimos que iniciaríamos um novo formato de comercialização, que seria de carteiras originadas por terceiros e não mais de originação própria”, declarou Vorcaro.
A decisão de Toffoli foi em resposta a um pedido do Banco Central para acessar o depoimento de Aquino, que foi ouvido em audiência no dia 30 de dezembro. O magistrado também levantou o sigilo dos depoimentos de todos os envolvidos, além da acareação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa.
No entanto, o restante do inquérito relacionado ao Master permanece em segredo até que a Procuradoria-Geral da República se manifeste. Essa investigação está vinculada à tentativa de aquisição de 58% do Master pelo BRB, uma operação que foi rejeitada pela autoridade monetária devido aos riscos ao Sistema Financeiro Nacional (SFN).
As investigações indicam que o BRB teria investido R$ 16,7 bilhões no Master entre 2024 e 2025, comprando carteiras de crédito fraudulentas e ativos irregulares. No ano anterior, o BRB informou que já havia liquidado ou substituído mais de R$ 10 bilhões dos ativos do Master e mencionou a possibilidade de receber um aporte do governo do Distrito Federal, controlador do banco, caso as perdas no caso Master sejam confirmadas.
Em novembro, o Master foi liquidado após ser alvo da operação Compliance Zero da Polícia Federal, na qual Vorcaro foi detido. A operação visava combater a venda de títulos de crédito falsos pelo conglomerado bancário, que eram utilizados para aumentar a capitalização da instituição, oferecendo taxas de juros superiores à média de mercado.
O caso foi encaminhado ao STF por envolver potenciais autoridades com foro privilegiado. Entretanto, a atuação de Toffoli tem sido criticada por alegações de parcialidade e conexão com Vorcaro. Nesta quinta-feira (29), o magistrado se manifestou oficialmente pela primeira vez, esclarecendo que foi designado relator do caso por sorteio e que decidirá sobre a remessa do caso à primeira instância apenas após o término das investigações. “Encerradas as investigações, será possível examinar os casos para eventual remessa às instâncias ordinárias, evitando que se aleguem nulidades por não observância do foro por prerrogativa de função ou por violação da ampla defesa e do devido processo legal”, afirmou.