Em 1984, a revista Manchete sintetizou a essência da Praia do Pinho, em Santa Catarina, com a famosa frase “Todo mundo nu em Camboriú”, destacando-a como um dos principais destinos naturistas do Brasil. Essa expressão se transformou em um bordão que inspirou programas humorísticos, mas, passadas quatro décadas, essa notoriedade já faz parte do passado. A recente decisão de proibir o naturismo em uma faixa de 500 metros de areia entre as praias de Laranjeiras e do Estaleirinho reacendeu o debate conservador sobre essa prática e levantou questões sobre a regulamentação desse modo de vida.
Reconhecida como a primeira praia brasileira dedicada ao naturismo, a Praia do Pinho representa uma filosofia que busca a conexão harmoniosa com a natureza, permitindo o nudismo coletivo sem conotações sexuais. Em dezembro, a prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan (PSD), aprovou uma nova legislação no Plano Diretor, que extinguiu a reserva de áreas destinadas ao naturismo, a qual já existia desde 2006.
A administração municipal justificou que o espaço havia perdido o verdadeiro propósito do naturismo, sendo frequentemente associado a atividades ilícitas e crimes. Críticas semelhantes já haviam sido levantadas anteriormente; em 2016, um jornal local chegou a descrever uma parte da praia como “um motel a céu aberto”, mencionando flagrantes de relações sexuais e uso de drogas.
Organizações e defensores do naturismo sempre rejeitaram qualquer associação com essas práticas e clamaram por um aumento na fiscalização e segurança. Paula Silveira, presidente da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), afirmou que as medidas só foram implementadas após a proibição. Ela argumenta que a falta de ação do poder público contribuiu para a deterioração da situação. “Durante uma limpeza de trilha, encontramos mais de mil camisinhas. Sempre solicitamos mais policiamento e controle de acesso. Quando sugeri a instalação de câmeras em áreas onde não é permitido ficar nu, fui alvo de piadas. Agora, ficou evidente que havia efetivo disponível”, declarou. “A inação do Estado cria espaço para ilegalidades. O naturismo, que nada tem a ver com essas práticas que nos incomodam, foi proibido.”
Em 2022, um vereador propôs um projeto para descaracterizar a Praia do Pinho como naturista, mas o Ministério Público recomendou que se aguardasse a revisão do Plano Diretor. No final de 2025, moradores apresentaram um abaixo-assinado mencionando orgias a céu aberto e lixo acumulado nas trilhas.
Poucos dias após a sanção da nova lei, a prefeita visitou a praia, que ela mesma descreveu como uma das mais belas da cidade. Em 27 de dezembro, reforçou a intenção de trazer “organização” ao uso do espaço. “Durante muitas décadas, a Praia do Pinho foi dedicada ao naturismo, mas essa prática se perdeu ao longo do tempo. Ouvimos a comunidade e decidimos encerrar essa desordem”, afirmou.
Logo após a revogação, a Polícia Militar deteve um homem nu na praia, sob a acusação de ato obsceno, resistência e desobediência. A FBrN recorreu à Justiça, que concedeu uma liminar para impedir a prisão de frequentadores. O juiz Marcelo Fidalgo Neves ressaltou que a caracterização de ato obsceno depende do contexto e da intenção, mas manteve a validade da proibição. O município anunciou que irá recorrer da decisão.
Em uma declaração, a FBrN destacou que naturismo “não é nudismo descontrolado” e questionou a revogação de um direito coletivo devido a falhas na gestão. A entidade também expressou preocupações legítimas sobre especulação imobiliária e a possível venda do Complexo do Pinho.
Situações semelhantes ocorreram em outras localidades. Em Búzios (RJ), imagens de uma orgia na praia Olho de Boi levaram a uma investigação policial em 2024. Em Santa Catarina, um projeto de lei que visava proibir o naturismo em todo o estado foi arquivado. O relator, deputado Alex Brasil (PL), defendeu que a regulamentação seria mais sensata do que a proibição, citando a Praia de Abricó, no Rio de Janeiro, como exemplo.
Para Pedro Ricardo de Assis, diretor da Associação Naturista de Abricó, o crescimento do conservadorismo está influenciando as decisões do governo. “Qualquer situação é utilizada como justificativa para proibir o naturismo, que sempre foi mal interpretado e sexualizado”, conclui.
(Com informações de O Globo)