O futebol feminino no Brasil se assemelha a um castelo de cartas: erguido com o trabalho árduo e a determinação de jogadoras e profissionais, mas suscetível a qualquer adversidade. Na noite desta segunda-feira (29), o Fortaleza anunciou a interrupção das atividades na categoria, justificando a escolha pela queda do time masculino e pela necessidade de reduzir custos.
Essa decisão implica que a única equipe cearense na primeira divisão nacional não participará da principal competição da modalidade, logo após ter conseguido um acesso inédito. O anúncio ocorre a apenas dois anos da Copa do Mundo Feminina, que terá Fortaleza como uma de suas sedes.
Na temporada em que celebraram a conquista da vaga na elite, as atletas agora enfrentam a frustração com o fim do projeto e a incerteza sobre os rumos futuros. Muitas famílias dependem do sustento proporcionado pelo futebol. Sob a liderança de Erandir Feitosa, as Leoas estavam em ascensão, conquistando a Copa Maria Bonita e o Campeonato Cearense.
O Fortaleza, frequentemente reconhecido como modelo de gestão no Brasil e na América do Sul, aprovou em 2025 um orçamento histórico de R$ 387 milhões, com R$ 118,8 milhões destinados ao futebol. Contudo, o montante investido na categoria feminina não foi divulgado.
Em comunicado, a SAF do clube afirmou ter buscado alternativas e reafirmou o compromisso com o projeto, mas a decisão suscita questionamentos: seriam realmente os esforços realizados suficientes?
O esporte feminino tem ganhado espaço no cenário global. Uma pesquisa da Women’s Sport Trust revela que 80% dos patrocinadores planejam aumentar seus investimentos na modalidade nos próximos anos, enquanto 85% dos atuais apoiadores desejam continuar seu suporte.
No Brasil, a final do Campeonato Brasileiro entre Corinthians e Cruzeiro contou com o apoio de 15 grandes marcas e quebrou recordes de audiência na TV aberta, evidenciando que o futebol feminino também traz retorno financeiro.
A CBF anunciou um novo calendário com mais clubes, competições e investimentos, além de uma maior atenção à base. O Brasil, primeiro país da América do Sul a sediar um Mundial feminino, precisa reforçar o desenvolvimento da modalidade.
Em julho, o Fortaleza recebeu a visita da Federação de Futebol dos Estados Unidos, que inspecionou instalações para apoiar a seleção americana. A ausência das Leoas como protagonistas nesse contexto é vista como um retrocesso.
A Arena Castelão é uma das candidatas a sediar o jogo de abertura da Copa, que pode contar com estrelas como Marta e talentos locais, como Fátima Dutra. Várias atletas das Leoas já se destacaram em convocações da base, como a atacante Tainá e a meia Érika.
Com o fim das atividades, o Fortaleza enfrentará uma sanção da CBF, ficando dois anos fora das competições. Se decidir retomar o projeto, terá que recomeçar na Série A3, a terceira divisão.