O cantor paulista Marcelo Jeneci está em Fortaleza para conduzir a imersão do projeto “Meu Agreste” na Escola Porto Iracema das Artes. A iniciativa, idealizada por Regina Kinjo, Jeff Portela, William Madeiro, Tim Oliveira, Joel Chagas e Alan Kardec, busca explorar e reinterpretar as obras do Quinteto Agreste, que é uma referência cultural significativa tanto para o Ceará quanto para a própria Regina Kinjo, fundadora do grupo.
A participação de Marcelo Jeneci faz parte do Laboratório de Música, um espaço dedicado à experimentação, pesquisa e desenvolvimento de projetos autorais, que atualmente está em sua 13ª edição. Desde agosto, o cantor, escolhido pelo grupo, tem guiado o processo de formação por meio de orientações individuais e atividades em grupo, enquanto os artistas em formação participam de um ciclo de oficinas, palestras e aulas abertas ao longo de sete meses.
Segundo Regina, o projeto “Meu Agreste” é uma nova interpretação das obras do Quinteto Agreste, que dialoga com as raízes nordestinas e também incorpora influências da cultura oriental, resgatando a ascendência japonesa da artista. A escolha por esse repertório ocorreu devido à falta de reconhecimento e homenagens a esse grupo. “Muitos artistas são celebrados aqui, como Belchior, Fagner e Ednardo. Mas pensei: ‘ninguém nunca falou ou cantou sobre o Quinteto Agreste’. Não posso deixar isso passar. Estamos desenvolvendo este projeto que mescla minhas raízes, metade nordestina e metade japonesa, na sonoridade e nas novas interpretações de suas canções”, reflete.
Na Porto, o grupo planeja criar um EP com quatro faixas, que será apresentado em um show.
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Membros do projeto ‘Meu Agreste’ se dedicam a revisitar a obra do Quinteto Agreste, unindo influências nordestinas e da cultura japonesa.
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Analice Diniz
Marcelo Jeneci, conhecido por sua versatilidade rítmica e instrumental, é um artista que traz uma rica mistura de referências, que vão de Dominguinhos a Chico César, figuras que marcaram sua trajetória e contribuíram para sua singularidade. Ele expressa sua empolgação em vivenciar esta imersão em outro estado e com pessoas diferentes, mas que envolvem um trabalho que já realiza desde sua juventude.
A escolha de Marcelo como mentor se deu pela identificação que Regina sente com seu trabalho. Ela comenta que, além de admirar sua obra, vê muitos pontos em comum entre suas propostas de ritmo e arranjos. “Ter um artista, arranjador e produtor renomado trabalhando conosco nos proporciona novas perspectivas e amplia nossos horizontes”, destaca.
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“Ele impacta diretamente o processo, mas sempre respeitando nossa essência artística”, ressalta Regina Kinjo sobre a orientação de Marcelo Jeneci.
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Conan Peixoto
Na sua abordagem, Marcelo compartilha com o Diário do Nordeste que a essência do trabalho autoral reside no fortalecimento da identidade e na busca pela individualidade. Ele explica que, no início da carreira, muitos aspirantes tendem a se inspirar em artistas estabelecidos, mas há um momento em que é necessário “cruzar esse véu e olhar para dentro”, buscando ser cada vez mais autêntico. “Criar algo novo não é apenas inventar, mas sim silenciar e abrir espaço para que sua própria expressão emerja”, enfatiza.
A metodologia adotada prioriza a liberdade, tanto individual quanto coletiva, permitindo que todos se sintam confortáveis para propor e construir juntos. Regina Kinjo destaca que, embora o grupo esteja desenvolvendo os arranjos e composições, Marcelo oferece uma visão externa que respeita a essência artística de cada um. “Ele nunca impõe ideias; sempre sugere, e nós avaliamos se está alinhado com nosso trabalho coletivo”, acrescenta. Para Marcelo, compartilhar conhecimentos e ideias é entrar em uma “brincadeira vibracional”, que depende da abertura de cada um.
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Durante a imersão do projeto ‘Meu Agreste’, o orientador reflete sobre escuta, processo criativo e a construção coletiva.
Foto:
Daniel Calvet
A experiência na Escola Porto Iracema das Artes representa para Marcelo Jeneci seu primeiro contato direto com uma instituição pública de formação artística de tal magnitude. A Porto, vinculada à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) e gerida em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM), foi inaugurada em 2013 e se firmou como um importante espaço de formação e criação artística no Estado. Situada em Fortaleza, a escola é composta por três áreas: Programa de Formação Básica, Cursos Técnicos e Laboratórios de Criação. Para Jeneci, essa estrutura representa um ecossistema raro no Brasil.
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A Escola busca fomentar um ambiente de intercâmbio rico em práticas e experiências estéticas.
Foto:
Micaela Menezes
Entre surpresa e admiração, Jeneci caracteriza a instituição como um modelo promissor para o futuro, onde a educação, a arte e a instrumentalização se encontram para fortalecer trajetórias e comunidades. “É aqui que reside a solução para o Brasil: integrar a escola com a cultura e as ferramentas de instrumentalização. Essa é a fórmula do sucesso social”, sintetiza.
Ele ressalta que é raro encontrar uma escola que não só forme artistas, mas que também se comprometa com um processo contínuo de pesquisa e circulação de trabalhos que reverberam nas tradições e criam novas camadas de significado. Para Jeneci, a Porto age como um organismo vibrante, colaborando com a cidade e promovendo mudanças sociais por meio do estímulo à criação.