Desde que o interesse dos Estados Unidos por reservas de terras raras e minerais estratégicos no Brasil veio à tona, em meados de 2025, o assunto se tornou central nas discussões do país. Especialistas concordam sobre a necessidade de aproveitar ao máximo as riquezas nacionais, mas a melhor maneira de fazer isso ainda é motivo de debate.
Recentemente, dois projetos de investimento australianos na região de Poços de Caldas (MG) receberam licença prévia e estão entre os mais avançados. O Projeto Caldeira, da Meteoric, lançou uma planta-piloto destinada a validar processos, coletar dados operacionais e produzir amostras. Com capacidade para processar 25 kg de argila iônica por hora, a planta contempla todas as etapas necessárias para transformar o minério em carbonato misto de terras raras, incluindo lixiviação, purificação, precipitação e filtração. O investimento foi de 1,5 milhão de dólares australianos (aproximadamente R$ 5,5 milhões), com a meta de produzir 455 kg de carbonato anualmente.
Outro projeto na mesma região é o da Viridis Mining & Minerals, que está desenvolvendo o Projeto Colossus. A empresa se preparou para solicitar financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que oferece até R$ 5 bilhões. Além disso, a Viridis recebeu uma carta de interesse de até US$ 100 milhões de uma agência de crédito à exportação do Canadá para auxiliar na execução do projeto.
O avanço de iniciativas como o da Viridis ressalta um dilema constante na política mineral brasileira: a escolha entre exportar matérias-primas em estado bruto ou processá-las internamente para oferecer produtos com maior valor agregado aos mercados internacionais. Para alguns especialistas, a decisão deve ser orientada por opções viáveis, e não por questões ideológicas, considerando que a tecnologia de refino das terras raras, um grupo de elementos químicos fundamentais para as tecnologias modernas, é controlada quase que exclusivamente pela China.
As investigações dos EUA em relação ao “tesouro” escondido no Brasil estão ligadas à demanda crescente por esses elementos, que são cruciais para inovações tecnológicas, transições energéticas e sistemas de defesa. Antes de focar no Brasil, os Estados Unidos tentaram negociar com a China, que domina amplamente a exploração e o refino de terras raras, respondendo por 70% da produção global e 85% da capacidade de refino. Essa supremacia confere à China uma influência significativa sobre setores de alta tecnologia, defesa, energia limpa e veículos elétricos.
O processamento de terras raras requer tecnologias especializadas e envolve uma cadeia completa, desde a extração física até a fabricação de componentes de alto valor agregado, passando por processos químicos complexos que resultam na formação de óxidos de terras raras, comercializados internacionalmente. A China controla todos os aspectos dessa cadeia.
Embora haja entusiasmo pelo desenvolvimento da tecnologia nacional, ainda existem desafios significativos. Apesar de o Brasil ter conhecimento sobre a transformação de terras raras em insumos para a indústria eletroeletrônica, o país nunca foi um produtor, ao contrário dos EUA, que lideraram o setor até os anos 80. Os processos de refino ainda não foram dominados, conforme observa Mateus Figueiredo, sócio da KPMG: “Ninguém vai compartilhar tecnologia gratuitamente com o Brasil.”
Figueiredo sugere que o Brasil deve inicialmente focar na extração, que é uma etapa mais tangível, enquanto o ciclo de desenvolvimento dos empreendimentos pode levar de 10 a 15 anos e enfrentar obstáculos de licenciamento ambiental. Durante esse tempo, a China, que aprimora sua cadeia desde os anos 1980, mantém custos competitivos devido à escala. “Embora seja uma ambição admirável desenvolver a cadeia de valor das terras raras, o Brasil deveria aproveitar seus recursos atuais para gerar receita”, diz ele.
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa as grandes mineradoras do país, adota uma postura equilibrada, defendendo que o Brasil deve avançar na cadeia de valor sem abrir mão de oportunidades imediatas. Julio Nery, diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios do Ibram, afirma: “Esperamos conseguir realizar o processamento no Brasil, mas reconhecemos os desafios.” Ele ressalta a importância de identificar onde é possível agregar valor sem comprometer a rentabilidade. “Se o Brasil tentasse processar todo o minério de ferro que produz em vez de exportá-lo, perderia 30% do saldo da balança comercial.”
Nery também destaca que o custo baixo dos produtos refinados da China é um obstáculo, agravado pela falta de investimentos em infraestrutura devido à situação fiscal do país. “O Brasil não conseguirá competir com os preços das terras raras processadas na China”, afirma. “Para aumentar a capacidade de processamento no Brasil, seria necessário um aumento na demanda, o que exigiria investimentos similares aos da China, que construiu cidades inteiras nas últimas décadas. Contudo, devido à sua situação fiscal, o Brasil enfrenta limitações de investimento.”
Apesar de as terras raras terem se tornado um tema mais conhecido no Brasil apenas recentemente, esses elementos essenciais para a tecnologia e defesa já estão nos planos das mineradoras há muito tempo. O setor representa 3,2% dos investimentos projetados para a mineração no país entre 2025 e 2029, totalizando cerca de US$ 2,2 bilhões, conforme informou o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Esses recursos serão alocados em diferentes fases de projetos e empreendimentos.