Poucas marcas de vestuário representam tão bem o Brasil quanto as coloridas sandálias de borracha. No entanto, o modelo preferido do país se viu recentemente no meio de uma controvérsia política. O tumulto começou com o lançamento da nova campanha de fim de ano da Havaianas, que contou com a participação da renomada atriz Fernanda Torres. No comercial, a atriz, em tom humorístico, sugere que os brasileiros não iniciem o Ano Novo “com o pé direito”, brincando com uma expressão popular que simboliza sorte.
“Comece o novo ano com os dois pés — os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca”, declarou Torres, que, aos 60 anos, se destacou globalmente no ano anterior com sua atuação no aclamado filme “Ainda Estou Aqui”, que retrata a brutalidade da ditadura militar brasileira, solidificando sua imagem como uma figura progressista no país.
A resposta dos conservadores não demorou a chegar. Figuras proeminentes da direita, incluindo os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, interpretaram o anúncio como uma provocação política em um momento delicado, à medida que se aproxima uma eleição presidencial decisiva no próximo ano. Em um vídeo nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente, clamou por um boicote aos chinelos. “Eu pensava que isso era um símbolo nacional”, afirmou, segurando um par de Havaianas pretas com uma pequena bandeira do Brasil. “Eu estava enganado”, completou, jogando as sandálias em uma lata de lixo.
Alguns apoiadores de Bolsonaro prometeram trocar suas Havaianas por produtos de concorrentes ou até mesmo por Crocs. A Havaianas não se manifestou sobre as críticas geradas pela campanha, e a porta-voz de Fernanda Torres preferiu não comentar. Durante as promoções de “Eu Ainda Estou Aqui”, a atriz havia expressado claramente sua oposição a Jair Bolsonaro.
A controvérsia reacendeu as divisões políticas que permeiam o Brasil, acentuadas este ano após a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal por conspiração de golpe de Estado após sua derrota nas últimas eleições. Esse julgamento dividiu o país, provocando manifestações tanto da esquerda quanto da direita.
As Havaianas foram criadas em 1962 no Brasil, inspiradas nas tradicionais sandálias japonesas zori, feitas de palha de arroz. Baratas e duráveis, rapidamente se tornaram um item indispensável no dia a dia brasileiro.
Entretanto, muitos não compreendem a polêmica. Para Rosileia Moreira, funcionária de recursos humanos de 49 anos, o comercial não tem conotação política. “As pessoas estão fazendo tempestade em copo d’água”, comentou, enquanto saía da loja da Havaianas com um novo par de chinelos coloridos. “Não é sobre esquerda ou direita”, acrescentou: “Vestir um par de chinelos e aproveitar a praia, isso é ser brasileiro”.