Quando tudo parecia se encaminhar para uma harmoniosa celebração natalina, a marca Havaianas lançou um comercial que provocou uma onda de polêmica pelo país. O motivo? A atriz Fernanda Torres inicia o vídeo com a afirmação: “eu não quero que você comece 2026 com o pé direito”. Essa brincadeira com um ditado popular sugeria que todos deveriam usar os dois pés, começando janeiro de forma plena. No entanto, quando a irracionalidade invade o debate público com intensidade, até mesmo um simples desejo de ano novo pode se transformar em uma arma de controvérsia.
A repercussão foi intensa, com pessoas se dividindo entre críticas e defesas de uma marca que, até então, gozava de ampla aceitação nacional. Ouvi muitos comentaristas afirmando que ninguém pode se permitir um deslize desse tipo. Se Fernanda Torres tivesse omitido a primeira frase, talvez a situação tivesse sido diferente. Se outra pessoa tivesse seguido o script na íntegra, o resultado também poderia ter sido benigno. Ou seja, o “erro” surgiu da combinação de fatores e do contexto.
Esse raciocínio nos leva a um caminho arriscado, e é aqui que reside a grande lição desse episódio. Nenhuma reação extrema justifica essa resposta. O debate de ideias é fundamental para a democracia, um princípio estabelecido desde a Grécia Antiga no século V a.C. Assim, caso a peça fosse considerada política, aqueles que concordassem provavelmente comprariam mais Havaianas, enquanto os que discordassem optariam pelas Ipanema.
A Teoria da Comunicação nos ensina que a eficácia da comunicação depende do emissor, do receptor, do meio, da mensagem e do ruído. O emissor transmite a mensagem, e o receptor a interpreta com base em seu conhecimento prévio, nas condições do meio e, principalmente, no ruído que pode distorcer a mensagem original.
Em 1964, o teórico canadense Marshall McLuhan popularizou a ideia de que “o meio é a mensagem”, ou seja, a forma como nos comunicamos altera nossa percepção do mundo. As redes sociais levaram essa ideia a um novo patamar. Grupos que se posicionam de forma extremada conseguiram sequestrar esse meio, distorcendo a mensagem de maneira absurda.
Muitas pessoas, mesmo bem informadas, encontram dificuldade em escapar desse massacre cognitivo. Precisamos urgentemente reverter essa situação, promovendo o diálogo e a tolerância, e afastando-nos do extremismo. No final das contas, é essencial que utilizemos nossos dois pés para avançar, e que isso comece já em 2026.