O petroleiro associado à Venezuela, que foi cercado pela Guarda Costeira dos Estados Unidos no último domingo (21), ainda não foi confiscado pelo governo americano. Na quarta-feira (24), a agência de notícias Reuters reportou que a Guarda Costeira aguardava a chegada de tropas adicionais para abordar e apreender o navio Bella 1. A Bloomberg, citando uma fonte envolvida na operação, informou que o Bella 1 não transportava petróleo e havia retornado ao oceano Atlântico. A expectativa é que o petroleiro não volte à Venezuela.
De acordo com a Bloomberg, a embarcação sancionada foi interceptada inicialmente nas proximidades de Barbados, no Caribe. Devido a condições climáticas adversas, foi aconselhado a se dirigir a águas mais calmas para ser apreendido. Um oficial dos EUA afirmou que “a Guarda Costeira persiste na intenção de apreender o petroleiro, e há uma ordem judicial para isso”.
Um funcionário americano, que falou sob condição de anonimato à Reuters, revelou que os agentes da Guarda Costeira a bordo do porta-aviões Gerald Ford pertenciam a uma Equipe de Resposta de Segurança Marítima e, naquele momento, estavam distantes demais do Bella 1 para realizar a operação de abordagem. A busca pelo Bella 1 reflete a “discrepância entre a vontade do governo Trump de apreender petroleiros sancionados perto da Venezuela e os recursos limitados da Guarda Costeira”, segundo a Reuters.
Nas últimas semanas, a Guarda Costeira confiscou dois petroleiros nas proximidades da Venezuela, intensificando a pressão do governo Trump sobre Nicolás Maduro. Na mesma quarta-feira (24), a Reuters informou que a Casa Branca ordenou que as forças militares dos EUA se concentrassem quase que exclusivamente em deixar a Venezuela em um estado de “quarentena”. Uma autoridade, que pediu anonimato, revelou que a orientação da Casa Branca foi para que as forças dos EUA se focassem na “quarentena do petróleo venezuelano por pelo menos os próximos dois meses”.
Mas por que esses navios estão sendo confiscados? A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, totalizando aproximadamente 303 bilhões de barris — cerca de 17% do volume global conhecido —, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA) dos EUA. Embora tenha um potencial imenso, este ainda não é totalmente explorado devido à infraestrutura inadequada e às sanções internacionais que restringem operações e acesso a capital.
Esse volume coloca a Venezuela à frente de países como Arábia Saudita (267 bilhões) e Irã (209 bilhões). No entanto, a maior parte do petróleo venezuelano é extra-pesado, o que requer tecnologia avançada e investimentos substanciais para sua extração. Há um claro interesse dos EUA nesse recurso, já que o petróleo pesado da Venezuela “se adapta bem às refinarias americanas, especialmente as localizadas na Costa do Golfo”.
Nesse contexto, o governo republicano busca alcançar dois objetivos simultaneamente: impulsionar a economia dos EUA enquanto pressiona a produção e as exportações de petróleo da Venezuela — um setor vital para a economia do país e para a sustentação do governo Maduro. Os efeitos iniciais dessa pressão já são visíveis. Segundo uma reportagem da Bloomberg News, Caracas está enfrentando dificuldades para armazenar seu petróleo, em decorrência das medidas de Washington que impedem a atracação de embarcações nos portos venezuelanos.
Desde a imposição de sanções ao setor energético da Venezuela em 2019, comerciantes e refinarias que compram petróleo venezuelano têm recorrido a uma “frota fantasma” de navios-tanque que escondem sua localização, além de embarcações sancionadas que transportam petróleo do Irã ou da Rússia. A China é a maior compradora do petróleo bruto venezuelano, representando cerca de 4% de suas importações. Em dezembro, os embarques devem atingir uma média superior a 600 mil barris por dia, conforme analistas consultados pela Reuters.
No momento, o mercado de petróleo está bem abastecido, com milhões de barris em navios-tanque ao largo da costa da China aguardando descarregamento. Se o embargo continuar por um período prolongado, a perda de quase um milhão de barris por dia na oferta de petróleo bruto tende a elevar os preços do petróleo.
Os ataques a petroleiros ocorrem enquanto Trump ordenou ao Departamento de Defesa que realizasse uma série de operações contra embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico, que sua administração alega estarem envolvidas no contrabando de fentanil e outras substâncias ilegais para os Estados Unidos e além. Desde o início de setembro, pelo menos 104 pessoas já foram mortas em 28 ataques confirmados. A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, declarou em entrevista à Vanity Fair que Trump “deseja continuar atacando barcos até que Maduro clame por ajuda”.