O Natal é uma festividade cristã que celebra o nascimento de Jesus Cristo, mas você sabia que nos primórdios do cristianismo, seus seguidores não realizavam uma comemoração anual dessa data? Além disso, a figura do Papai Noel tem suas raízes nos atos generosos de um bispo do século IV? E já ouviu falar da curiosa tradição japonesa de consumir frango frito do KFC durante o Natal?
Desde o início do século XX, o Natal transformou-se de um feriado estritamente religioso em uma celebração cultural amplamente reconhecida, participada tanto por cristãos quanto por não crentes ao redor do mundo, que se reúnem em família, trocam presentes e enfeitam árvores natalinas.
A exata data do nascimento de Jesus, incluindo o dia, o mês e o ano, permanece desconhecida, conforme aponta Christine Shepardson, professora da Universidade do Tennessee, especialista em cristianismo primitivo. Segundo ela, a tradição de celebrar o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro começou apenas no século IV, quando o imperador Constantino permitiu que os cristãos se reunissem em igrejas, em vez de em lares.
Algumas teorias sugerem que a escolha do dia coincide com festivais pagãos que celebram o solstício de inverno, como o festival romano do Sol Invictus, que também ocorre em 25 de dezembro. Enquanto a maioria dos cristãos celebra o Natal nessa data, algumas tradições ortodoxas orientais o fazem em 7 de janeiro, devido ao uso do calendário juliano, que está 13 dias atrás do calendário gregoriano, utilizado pela maior parte do mundo.
Ao longo da Idade Média, o Natal era associado a celebrações tumultuadas nas ruas, com banquetes e bebidas, e, segundo Thomas Ruys Smith, professor de Literatura e Cultura Americana na Universidade de East Anglia, “não era um feriado bem visto” por muitos cristãos, especialmente pelos puritanos. No entanto, no século XIX, o feriado ganhou uma nova imagem, tornando-se uma “celebração respeitável”, centrada no lar, na família, nas crianças e na troca de presentes.
As origens do Natal moderno estão ligadas à Alemanha, onde, no final do século XIX, surgiram relatos do uso de árvores de Natal e da troca de presentes. Essas tradições se espalharam para o Reino Unido e os Estados Unidos, revitalizando a celebração em ambas as regiões.
São Nicolau, um bispo cristão do século IV na cidade portuária de Mira, na atual Turquia, é a inspiração por trás da lenda do Papai Noel. Suas generosidades vão além de simplesmente distribuir doces e brinquedos; acredita-se que ele tenha defendido prisioneiros injustamente acusados e salvado marinheiros em tempestades.
A devoção a São Nicolau se espalhou pela Europa durante a Idade Média, tornando-se um tema comum na arte e na liturgia. Ele é venerado como o santo protetor dos marinheiros e das crianças, além de ser reconhecido em países como Grécia, Rússia e Nova York. Após a Reforma Protestante no século XVI, a adoração a São Nicolau diminuiu, exceto na Holanda, onde sua figura sobreviveu como Sinterklaas. No século XVII, os protestantes holandeses que se estabeleceram em Nova York trouxeram essa tradição consigo, que eventualmente evoluiu para o Papai Noel que conhecemos hoje.
Em diferentes partes do mundo, outras figuras assumem o papel de distribuidores de presentes. No Reino Unido, é o Pai Natal; na Grécia e no Chipre, é São Basílio, que aparece na véspera do Ano Novo; algumas regiões da Itália são visitadas por Santa Luzia, enquanto outras têm a Befana, uma figura semelhante a uma bruxa que presenteia na Epifania, em 6 de janeiro. Na Islândia, em vez do Papai Noel, as crianças recebem presentes de 13 travessos irmãos trolls conhecidos como os Rapazes do Natal, que descem de sua caverna na montanha 13 dias antes do Natal.
Uma das tradições natalinas mais antigas é trazer heras ou pinheiros para dentro de casa. No entanto, a questão de se essa prática é estritamente cristã é mais complexa. “Para muitas pessoas, o pinheiro simboliza a promessa de vida eterna de Cristo e seu retorno da morte”, explica Smith. A tradição de decorar pinheiros teve origem na Alemanha no século XVI, antes de se espalhar para a Inglaterra e os Estados Unidos.
O visco, um arbusto perene, também tem uma longa história, utilizado em celebrações que remontam aos antigos druidas celtas, há cerca de 2 mil anos. Maria Kennedy, professora do Departamento de Estudos Americanos da Universidade Rutgers, afirma que o visco simbolizava a imortalidade, pois continuava a crescer durante os meses mais sombrios do ano. Outras tradições natalinas incluem cultos e a montagem de presépios em lares e igrejas, que, mais recentemente, têm gerado disputas judiciais sobre a separação entre Igreja e Estado nos Estados Unidos.
As canções natalinas também estão ligadas a tradições europeias, onde as pessoas costumavam visitar casas durante o inverno para fortalecer laços comunitários e desejar sorte, saúde e prosperidade para o ano que se aproximava. Esses atos muitas vezes incluíam recitações, canções e até pequenas peças teatrais, com a esperança de trazer boa fortuna e influenciar colheitas futuras.
Entre as diversas tradições natalinas que foram adaptadas em todo o mundo, destaca-se a peculiaridade do KFC. Em 1974, a rede lançou uma campanha de Natal, oferecendo frango frito com uma garrafa de vinho como alternativa à ceia natalina. A ideia surgiu quando um funcionário ouviu um cliente em Tóquio lamentar a dificuldade de encontrar peru no Japão e decidir comemorar com frango frito do Kentucky. “A estratégia realmente deu certo”, afirma Smith. “Até hoje, é necessário encomendar seu KFC com meses de antecedência para garantir que você o receba no dia de Natal.”
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