Apesar das tarifas severas implementadas pelo governo de Donald Trump, as exportações brasileiras mostraram uma resiliência surpreendente, atingindo o maior valor em uma década para este período. Esse resultado foi impulsionado pela diversificação de mercados e pelo desempenho positivo de setores mais especializados, o que ajudou a mitigar o impacto negativo na balança comercial e a reduzir a dependência do mercado dos EUA.
Recentemente, em novembro, os Estados Unidos recuaram na aplicação de uma tarifa adicional de 40% sobre uma lista de mais de 200 produtos, especialmente do agronegócio. Um estudo da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), revela que, entre os 30 setores que exportam para os EUA, 19 deles geraram um total de US$ 21,2 bilhões de janeiro a novembro deste ano, o que representa uma queda de 14,5% em comparação ao mesmo período de 2024, quando não havia tarifas.
Ainda assim, apesar do impacto das tarifas sobre esse grupo, outros 11 setores conseguiram aumentar suas vendas para os EUA, atenuando a queda nas exportações totais. Esses setores juntos exportaram US$ 12,9 bilhões entre janeiro e novembro deste ano, com um crescimento de 9,8% em relação ao mesmo período de 2024. Como resultado, a diminuição das exportações brasileiras para os EUA foi menor do que se esperava, totalizando uma queda de 6,7% até novembro.
De acordo com Daiane Santos, pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e economista da Funcex, “os efeitos do tarifaço foram assimétricos entre os setores”. Ela acredita que a variação nas exportações para o mercado americano se deve ao perfil dos produtos. Os setores que conseguiram aumentar as vendas, como aviação, óleos combustíveis, carne bovina, suco de laranja, pneus, motores e geradores elétricos, café e partes de motores para aviação, têm um grau de especialização que confere vantagens comparativas em relação aos concorrentes.
Outro aspecto que favoreceu o crescimento das vendas nesses setores é a alta dependência dos importadores por alguns produtos, que continuam a ser adquiridos mesmo com preços mais altos. Por exemplo, as vendas de café em grão aumentaram 6,8% em valor, assim como máquinas e equipamentos elétricos, que subiram 11,3%.
Em contrapartida, os 19 setores cujas vendas para os EUA foram afetadas pelas tarifas estão predominantemente ligados a commodities, produtos básicos e padronizados, ou bens intermediários, de acordo com a economista. Em outubro, as exportações brasileiras para o mercado americano caíram quase 40% em relação ao mesmo mês de 2024, conforme observou Julia Marasca, economista do Itaú BBA.
No mês de outubro, os EUA representaram apenas 7,1% do total exportado pelo Brasil, enquanto o restante do mundo ficou com 92,9%, indicando um aumento significativo em outros destinos, conforme aponta a Funcex. Em novembro, as exportações para os EUA começaram a se recuperar, alcançando 9,3% do total. Daiane atribui essa recuperação à suspensão das tarifas para alguns produtos, como café, carne bovina e frutas, e ressalta a importância do recuo nas tarifas de 50% decididas por Trump.
Um aspecto notável do comércio exterior é que, de forma geral, as exportações brasileiras estão se saindo muito bem, destaca Julia, do Itaú BBA. Isso indica que, ao excluir os Estados Unidos, as vendas externas estão crescendo. A economista também aponta o avanço das exportações, especialmente para a Ásia, que responde por cerca de 40%, com China e Índia se destacando, além da América do Sul, especialmente a Argentina.
Nos últimos meses, houve um aumento nas exportações para outros destinos, como Holanda, Itália, Canadá, Egito, Oriente Médio, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Essa tendência sugere que o Brasil está conseguindo diversificar suas exportações geograficamente, redirecionando parte do comércio que antes era destinado aos EUA. De janeiro a novembro, China e Índia representaram 31,1% das exportações brasileiras, em comparação a 29,6% do ano anterior. A Argentina, por sua vez, foi o destino de 5,4% das exportações brasileiras neste ano até novembro, um aumento em relação a 4,1% no total de 2024.
Na visão de Daiane, o Brasil está acertando ao não retaliar as tarifas dos Estados Unidos e buscar alternativas, focando em arranjos regionais e intensificando as exportações para países do Brics e da América do Sul. Essa estratégia resultou em um saldo projetado para a balança comercial deste ano que não será tão negativo devido ao tarifaço. A diminuição virá principalmente do aumento das importações, em decorrência de uma atividade econômica aquecida, conforme ressalta Julia.
Até novembro, a balança comercial acumulou um superávit de US$ 57,8 bilhões. O último Boletim Focus do Banco Central indica que o mercado projeta um superávit de US$ 62,85 bilhões para este ano. Julia, do Itaú BBA, projeta um saldo comercial de US$ 65 bilhões para 2025, uma redução de US$ 9,2 bilhões em relação a 2024. Essa diminuição em relação ao ano anterior será mais influenciada pelo aumento das importações do que por uma queda nas exportações. A economista estima que as exportações devem totalizar US$ 350 bilhões, um crescimento de 3,9% em comparação aos US$ 337 bilhões de 2024, mesmo diante do tarifaço.
Quanto às importações, a expectativa é de um aumento significativo de quase 8%, o que equivale ao dobro do crescimento das exportações. No ano passado, o Brasil importou US$ 269,2 bilhões, e, até agora, em 2023, foram US$ 260 bilhões. A projeção do Itaú BBA é que as compras externas fechem o ano em US$ 284 bilhões.