De acordo com Rodrigo Lopes, doutor em História Social e analista político, o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não alcançou as expectativas criadas, especialmente quando comparado a administrações passadas. Em entrevista à Itatiaia, ele observa que, após duas décadas de transformações políticas e a adoção de um modelo que se assemelha ao semiparlamentarismo, a gestão atual carece de mudanças significativas e grandes projetos sociais com a marca do petista.
“Não se pode considerar um bom governo, mas peço que ouçam a explicação antes de tirar conclusões precipitadas. O panorama político mudou drasticamente, assim como a dinâmica do exercício do poder. As gestões de Lula nos anos anteriores operaram em um contexto distinto, com outras disputas de poder e forças. Hoje, a governabilidade do Executivo está atada por limitações que não existiam há 20 anos, e o Congresso possui um capital político diferente”, esclarece.
Lopes menciona que, após o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016, o Brasil passou a adotar um modelo político que concentra considerável poder no Congresso, resultando em um semiparlamentarismo. Esse desequilíbrio de poder tem gerado tensões que influenciaram governos subsequentes, como os de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL).
“Com Lula, a situação não é diferente. Ele busca recuperar o capital político do Executivo e enfrenta constantes desafios com deputados e senadores. Essa desarmonia no poder dificulta a governabilidade e a implementação de uma agenda política, fazendo com que o governo reaja em vez de ser proativo”, observa.
Como exemplo da falta de avanços significativos, o especialista menciona o setor educacional. Ele critica a “desastrosa” realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, marcada por vazamentos e controvérsias, e aponta a escassez de programas sociais na educação que marcaram a gestão Lula 3. “No início, ele conseguiu implementar o programa Pé de Meia, que foi um dos principais avanços na educação. Contudo, este ano foi um fracasso no Enem, e não há políticas que fiquem na memória como nos primeiros mandatos de Lula”, reflete.
Apesar dos desafios, Lopes acredita que a falta de uma oposição forte posiciona Lula como um dos candidatos favoritos para as eleições do próximo ano, aumentando suas chances de reeleição. “Quem é a figura da oposição atualmente? Quais nomes a direita está considerando para enfrentar Lula? Vários nomes têm surgido, como Tarcísio, Ratinho Jr. e Romeu Zema, mas nenhum deles se destacou ainda. Em relação a Flávio Bolsonaro, parece que há uma tentativa de manter o sobrenome Bolsonaro relevante, mas sua candidatura ainda está indefinida, mais como uma estratégia de preservar a imagem da direita do que uma efetiva candidatura”, conclui.