** O youtuber e divulgador científico Pirula sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) severo no final de maio e enfrentou um período crítico nas semanas subsequentes, conforme relatos de seus familiares e amigos. Durante uma transmissão ao vivo no YouTube, eles compartilharam que sua condição exigiu cuidados intensivos, incluindo uma cirurgia para a remoção temporária de parte do crânio, resultando em sequelas motoras do lado direito do corpo, além de dificuldades na fala e na memória — que estão apresentando uma melhora gradual com o processo de reabilitação.
Os relatos indicam que o AVC afetou o lado esquerdo do cérebro. Pirula agora utiliza uma cadeira de rodas e iniciou uma reabilitação que inclui fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional ainda durante sua internação. Amigos ressaltam que sua capacidade de compreensão permanece intacta, embora sua fala esteja evoluindo lentamente, com dificuldades para encontrar palavras. A memória, embora reconheça pessoas e eventos, apresenta algumas falhas, como esquecer senhas. As primeiras semanas foram descritas como as mais críticas, com alto risco de complicações.
**Entenda o que ocorre no cérebro durante um AVC:** O acidente vascular cerebral acontece quando uma região do cérebro não recebe sangue de forma adequada ou quando ocorre sangramento no próprio tecido cerebral. O sangue é vital, pois transporta oxigênio e glicose, as principais fontes de energia dos neurônios.
“No caso do AVC isquêmico, que é o mais comum, um vaso sanguíneo se obstrui, impedindo que o sangue chegue a uma área cerebral; sem energia, as células rapidamente entram em sofrimento e podem morrer”, explica Orlando Maia, neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema, membro da World Federation of Neuroradiology e vice-presidente do Congresso Brasileiro de Neurocirurgia.
No AVC hemorrágico, a situação envolve o rompimento de um vaso sanguíneo, o que leva ao extravasamento do sangue, comprimindo o tecido e aumentando a pressão dentro do crânio. Como o cérebro consome uma quantidade significativa de energia, ele não consegue armazená-la. Por conta disso, poucos minutos sem oxigênio e glicose podem causar danos irreversíveis. “A cada minuto sem circulação adequada, mais neurônios são perdidos”, afirma Maia, enfatizando a importância de um atendimento rápido.
**Fala, memória e as sequelas:** No AVC isquêmico, existe uma janela de oportunidade para tentar reabrir o vaso e restaurar o fluxo sanguíneo. Medicamentos trombolíticos podem dissolver o coágulo em até quatro horas e meia após o início dos sintomas; em casos selecionados, procedimentos endovasculares podem remover o trombo com o uso de cateteres. “Quanto mais cedo o tratamento, maior a chance de salvar tecido cerebral e minimizar sequelas”, ressalta Werlley de Almeida Januzzi, diretor do Pronto-Socorro do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).
O cérebro controla o corpo de maneira “invertida”. Comandos do lado esquerdo do cérebro descem por feixes nervosos que se cruzam antes de atingir os músculos. Assim, uma lesão no hemisfério esquerdo geralmente afeta o lado direito do corpo, e vice-versa. Quando o AVC atinge áreas relacionadas ao movimento, a pessoa pode apresentar fraqueza ou paralisia em braços e pernas. Se a lesão ocorre em regiões associadas à linguagem, surgem dificuldades para falar, formular frases ou encontrar palavras, mesmo que a compreensão permaneça intacta.
As sequelas dependem da localização e extensão da lesão, além do tempo sem circulação sanguínea. Lesões em áreas da linguagem podem dificultar a formação de frases, enquanto danos em regiões ligadas à memória e atenção podem resultar em esquecimentos e confusão mental. “Há uma área central que se perde rapidamente e uma área circundante — a penumbra — que ainda pode se recuperar se o fluxo sanguíneo for restabelecido a tempo”, esclarece Januzzi.
**Por que as primeiras semanas são cruciais:** Após um AVC extenso, ocorre uma cascata inflamatória que pode provocar inchaço cerebral. Como o crânio é rígido, a pressão interna aumenta, ameaçando funções vitais. Em casos severos, pode ser necessária uma craniectomia descompressiva — remoção temporária de parte do osso — para salvar a vida. “Essa cirurgia cria espaço e permite que o cérebro atravesse a fase mais crítica”, afirma Maia.
Apesar da gravidade da situação, o cérebro possui uma notável capacidade de adaptação. Esse fenômeno, conhecido como neuroplasticidade, permite que áreas não afetadas assumam, pelo menos parcialmente, funções que foram perdidas. Essa é uma das razões pelas quais alguns pacientes conseguem cantar com mais facilidade do que falar após um AVC: diferentes redes cerebrais podem ser ativadas durante a reabilitação para auxiliar a linguagem falada.
A recuperação tende a ser mais intensa nos primeiros meses, mas pode continuar por anos, especialmente com um programa de reabilitação adequado. “Nos primeiros seis meses, os avanços são mais rápidos, mas não se deve desistir após esse período; cada pequeno progresso é importante”, conclui Maia. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional são essenciais para aproveitar a plasticidade cerebral.