Há cerca de um ano, a ideia de que a Embraer pudesse criar uma aeronave para aproximadamente 200 passageiros, capaz de competir diretamente com as renomadas Boeing e Airbus, ganhou destaque recentemente após declarações de Carsten Spohr, CEO da Lufthansa. Durante sua visita ao Brasil, Spohr expressou o desejo de que a fabricante brasileira se aventurasse na produção de aviões maiores e mencionou a intenção de dialogar com a liderança da Embraer sobre o tema. O suporte e as encomendas de companhias aéreas são fundamentais para tornar essa iniciativa viável.
Em resposta a essas especulações, a Embraer emitiu um comunicado afirmando que possui “novos e competitivos produtos em todos os segmentos” e que seu foco atual é ampliar as vendas de seu portfólio existente. Além disso, a empresa continua investindo em novas tecnologias para estar preparada para o próximo ciclo de desenvolvimento de produtos, independentemente do segmento (aviação comercial, executiva ou defesa). No entanto, a empresa não conseguiu fornecer uma data concreta para essa decisão.
Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, já reconheceu que a companhia tem planos para desenvolver um novo produto, mas ainda não há uma definição clara sobre qual será. Em julho, durante uma entrevista ao Estadão, ele afirmou que o projeto de um novo jato ainda está em estágios iniciais. “Estamos realizando estudos para futuros produtos. Pode ser um avião executivo ou comercial, mas ainda estamos na fase de pesquisa. Não temos uma resposta sobre qual produto será ou como será desenvolvido.”
Gomes Neto também afirmou que não há pressa para iniciar um projeto novo, considerando que cerca de 25% dos 4 mil engenheiros da empresa estão dedicados ao desenvolvimento do eVTOL (o veículo aéreo que está sendo criado pela subsidiária Eve), enquanto outra parte significativa da equipe se concentra em aprimorar o portfólio atual.
O desenvolvimento de um avião para aproximadamente 200 lugares exigiria um investimento entre US$ 8 bilhões (R$ 43,4 bilhões) e US$ 10 bilhões (R$ 55 bilhões), segundo Alberto Valerio, analista do UBS BB. Se o custo atingir US$ 10 bilhões, isso se aproximaria do valor atual da Embraer no mercado (R$ 59,5 bilhões). “A empresa tem capacidade para desenvolver uma aeronave desse tipo, mas também enfrenta riscos”, observa Valerio.
Ele acrescenta que, para viabilizar a criação de um novo modelo, a Embraer precisaria captar recursos no mercado por meio da emissão de ações e dívidas, além de estabelecer parcerias com clientes e fornecedores de componentes, como motores e sistemas de navegação. “Seria essencial garantir um volume significativo de encomendas por parte das companhias aéreas”, ressalta Valerio, sugerindo que seria ideal que “três” companhias do porte da Lufthansa fizessem pedidos de cerca de 300 aeronaves cada.
André Mazini, também analista do setor e membro do Citi, concorda que a Embraer possui a capacidade de engenharia necessária para desenvolver um novo avião. “O desafio maior é garantir a viabilidade financeira e assegurar uma boa capacidade de manutenção pós-venda. Atualmente, essa capacidade é adequada, mas precisa ser aprimorada”, afirma.
Mazini enfatiza ainda que as companhias aéreas “claramente desejam romper com o duopólio”. Com apenas a Boeing e a Airbus fabricando jatos de 200 lugares, a entrada de uma terceira concorrente no mercado poderia exercer pressão sobre os preços das aeronaves. Durante sua visita ao Brasil, o CEO da Lufthansa ressaltou que a presença de três fabricantes no setor fomentaria uma maior velocidade de inovação. Ele também observou que existe espaço no mercado para aviões de qualidade superior e a preços mais acessíveis.
O analista do Citi recorda que executivos da Embraer já indicaram que a empresa não pretende assumir um projeto dessa magnitude sozinha e que desejam contar com o apoio das companhias aéreas por meio de encomendas. “Uma abordagem para viabilizar o avião seria contar com cerca de US$ 3 bilhões em encomendas das aéreas, ajudando a financiar o projeto. Os fabricantes de motores, como a GE, poderiam contribuir com outros US$ 3 bilhões, o BNDES com mais US$ 2 bilhões, e a Embraer com cerca de US$ 2 bilhões. Dessa forma, o projeto se tornaria mais viável”, conclui.