Com 2026 se aproximando, um ano marcado pela Copa do Mundo e por eleições, incluindo a presidencial, é importante notar que a desinformação nas redes sociais continuará a se intensificar, um fenômeno que já se acentuou desde 2018 e que agora será amplificado pela inteligência artificial.
À medida que a tecnologia de IA se torna mais avançada, a relevância da nossa humanidade se torna ainda mais crucial para garantir nosso papel ativo na sociedade. Se deixarmos de lado nosso senso crítico, corremos o risco de sermos dominados por máquinas e, pior ainda, por indivíduos que utilizam essas ferramentas para atender a seus próprios interesses. Essa é uma realidade preocupante.
Em 2024, o filósofo Luciano Floridi, que dirige o Centro de Ética Digital da Universidade de Yale (EUA), abordou o conceito de “hipersuasão” em um artigo que explora essa questão. Floridi, uma das vozes mais respeitadas na filosofia da informação, considera a IA uma ferramenta perfeita para persuasão, devido à sua capacidade de entender profundamente os usuários e criar conteúdos extremamente convincentes que refletem as características e valores de cada pessoa.
Ele expressa sua preocupação ao afirmar que “a avaliação do poder de hipersuasão da IA é negativa e pode ser até aterrorizante, considerando todos os agentes mal-intencionados que poderiam utilizá-la para fins nefastos”. Floridi enfatiza que “milhões de indivíduos poderiam estar vulneráveis a tal hipersuasão, incapacitados de resistir a ela de maneira crítica”.
Para ele, em uma sociedade justa, as formas aceitáveis de hipersuasão deveriam ser regulamentadas, enquanto as inaceitáveis deveriam ser banidas. Embora ele acredite que cidadãos educados e engajados poderiam mitigar esses riscos, admite que tal ideia é utópica. “Um público mais informado, que expresse preocupações coletivas e participe de discussões sobre o uso ético da IA como tecnologia persuasiva, pode influenciar os debates políticos e os processos democráticos.”
Um exemplo de veículo de comunicação desenvolvido exclusivamente por IA é o NewsGPT, que se autodenomina “a verdade não humana”. Segundo sua descrição, a plataforma se baseia em dados e algoritmos em vez de opiniões humanas, prometendo eliminar vieses pessoais na produção de notícias. Além disso, afirma ter a capacidade de processar grandes volumes de informações de diversas fontes, garantindo uma cobertura noticiosa contínua globalmente.
Entretanto, o NewsGPT apresenta um problema ao oferecer “notícias personalizadas, adequadas às preferências de cada usuário”, o que pode comprometer a integridade do jornalismo. A falta de transparência em relação aos seus acionistas, algoritmos e auditorias de neutralidade levanta questões sobre possíveis agendas políticas ocultas. Essa abordagem pode enfraquecer o jornalismo tradicional, pois os consumidores se acostumam com um conteúdo que supostamente atende a seus interesses, resultando em um desvio do jornalismo sério, que, por sua vez, pode se tornar menos viável economicamente.
Floridi alerta que “o risco é que a hipersuasão explore as vulnerabilidades das pessoas ou as leve a tomar decisões que não são do seu interesse”. Ele acredita que é possível utilizar essa capacidade de maneira frutífera e responsável, mas resta saber se realmente o faremos. Infelizmente, muitos podem optar por usar as redes sociais e a IA para difundir mentiras que confortam suas crenças.