** No sábado (20), um petroleiro foi confiscado pelas autoridades dos Estados Unidos nas proximidades da Venezuela, com destino declarado à China, conforme reportou a agência de notícias Reuters.
Esta é a segunda embarcação apreendida pelos EUA desde que o governo Trump intensificou suas ações contra o regime de Nicolás Maduro, que incluem uma mobilização militar significativa no Caribe, operações aéreas e ataques a navios. A primeira apreensão ocorreu em 10 de dezembro, marcando um novo aumento nas tensões entre os dois países.
O presidente Trump anunciou, na terça-feira (16), um bloqueio total a petroleiros sancionados que partem da Venezuela, afirmando que o país está cercado militarmente. Analistas interpretaram essa declaração como um aumento nas ameaças dos EUA. Em contrapartida, o governo Maduro classificou as palavras de Trump como uma “ameaça grotesca” e “absolutamente irracional”.
O navio apreendido, denominado VLCC Centuries, transportava cerca de 1,8 milhão de barris de petróleo bruto venezuelano Merey, com destino à China, de acordo com documentos internos da PDVSA, a estatal petrolífera da Venezuela. A embarcação navegava sob a bandeira do Panamá e utilizava o nome fictício “Crag”.
Conforme a Reuters, o Centuries fazia parte da chamada “frota fantasma” da Venezuela, composta por navios que, utilizando bandeiras estrangeiras ou nomes falsos, tentam ocultar o transporte de petróleo venezuelano para evitar sanções internacionais. Táticas semelhantes são empregadas por outros países sob sanção, como Irã e Rússia.
De acordo com a organização Transparência Venezuela, cerca de 40% dos navios que transportam petróleo bruto venezuelano operam de maneira irregular. O Centuries deixou as águas da Venezuela na quarta-feira, após ser brevemente acompanhado pela marinha venezuelana, e foi apreendido em águas internacionais a oeste da ilha de Barbados.
Os documentos analisados pela Reuters indicam que o petróleo foi adquirido pela Satau Tijana Oil Trading, uma das numerosas intermediárias que facilitam as vendas da PDVSA para refinarias independentes na China. Em resposta ao bloqueio anunciado por Trump, o governo de Maduro afirmou que a exportação de petróleo e a navegação de petroleiros continuam normalmente, com escolta da Marinha venezuelana.
Fontes da Reuters informaram que o regime Maduro autorizou, na quinta-feira, a saída de dois petroleiros em direção à China, cada um transportando cerca de 1,9 milhão de barris de petróleo cru.
A apreensão do segundo navio ocorreu nas primeiras horas do sábado, e um vídeo da operação foi compartilhado pela secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem. “Os Estados Unidos continuarão a combater a movimentação ilícita de petróleo sob sanções, utilizada para financiar o narcoterrorismo na região”, escreveu Noem em suas redes sociais.
A Venezuela condenou a apreensão do petroleiro, rotulando-a como um “grave ato de pirataria internacional” e afirmando que as ações do governo Trump “não ficarão impunes”. A primeira apreensão ocorreu no dia 10, e uma semana depois, Trump anunciou o bloqueio total a petroleiros venezuelanos, afirmando que o país estava completamente cercado.
Maduro considerou a ação uma “interferência brutal” de Washington. No dia seguinte à primeira apreensão, a Rússia, que já havia manifestado apoio a Maduro, comentou sobre a pressão americana, afirmando que as tensões poderiam ter consequências imprevisíveis para o Ocidente. O Conselho de Segurança da ONU está programado para se reunir na próxima terça-feira para discutir o aumento da tensão militar entre EUA e Venezuela.
A razão por trás das apreensões de navios está relacionada ao fato de que a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, representando 17% do total conhecido, segundo a Energy Information Administration (EIA) dos EUA. Embora o potencial seja enorme, a extração é dificultada por tecnologia avançada e investimentos necessários, além da infraestrutura precária e das sanções internacionais que limitam operações e acesso a capital.
Os EUA demonstram um claro interesse, uma vez que o petróleo pesado da Venezuela é ideal para refinarias americanas, especialmente as localizadas na Costa do Golfo. Assim, o governo republicano busca, simultaneamente, favorecer a economia dos EUA e pressionar a produção e exportação de petróleo da Venezuela, um setor crucial para a economia e a sobrevivência do regime de Maduro.
Os efeitos das sanções já são visíveis. Reportagens indicam que Caracas enfrenta dificuldades para armazenar petróleo devido às medidas de Washington que visam impedir a atracação de embarcações em portos venezuelanos. Desde que as sanções ao setor energético foram impostas em 2019, comerciantes e refinarias que adquirem petróleo venezuelano têm recorrido a uma “frota fantasma” de navios-tanque que escondem sua localização, além de embarcações sancionadas por transportar petróleo do Irã ou da Rússia.
A China é a principal compradora do petróleo bruto venezuelano, responsável por cerca de 4% de suas importações. Em dezembro, as remessas devem ultrapassar uma média de 600 mil barris por dia, conforme analistas consultados pela Reuters. Por enquanto, o mercado de petróleo está bem abastecido, com milhões de barris à espera de descarregamento ao largo da costa chinesa.
Se o embargo continuar, a perda de quase um milhão de barris por dia na oferta de petróleo bruto pode pressionar os preços do petróleo para cima. As apreensões de petroleiros coincidem com a ordem de Trump ao Departamento de Defesa para realizar ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico, que sua administração alega estarem contrabandeando fentanil e outras substâncias ilegais para os Estados Unidos e além.
Pelo menos 104 pessoas foram mortas em 28 ataques registrados desde o início de setembro. A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, comentou em uma entrevista que Trump “deseja continuar atacando embarcações até que Maduro clame por socorro.”