As redes sociais estão repletas de fotos das celebrações e confraternizações de fim de ano. As compras online se intensificam com a necessidade de presentear amigos, familiares e até a si mesmo. O mês de dezembro traz uma corrida frenética para cumprir metas e otimizar tarefas antes do recesso, enquanto as tendências do momento revelam quantos livros, filmes, músicas e encontros marcaram o ano.
Neste cenário de hiperconexão e correria, especialmente acentuados pelas obrigações sociais, profissionais e de consumo das festividades, o Verso convida à reflexão sobre a prática do detox digital e a possibilidade de redefinir a relação com dispositivos e redes sociais neste período de festa.
Recentemente, a influenciadora Juliette compartilhou com seus 28 milhões de seguidores que se afastará do celular durante uma semana para um retiro de desconexão: “Estou nessa linha de reconexão e acredito que esse tempo longe da internet será benéfico. Não é a causa de todos os problemas, mas ajuda”, disse.
Luiza Ester, mestra em Psicologia pela Universidade de Fortaleza e membro do Laboratório de Estudos Multidisciplinares sobre Ócio e Tempo Livre (Otium), analisa esse paradoxo entre o desejo de desconectar e a necessidade de permanecer visível em um mundo tão conectado. “Esse movimento de se afastar pode gerar significados e experiências que vão além do virtual, tocando onde as pessoas realmente estão: no ambiente online”, observa.
Diferente de Juliette, a recepcionista e estudante de marketing Vitória Lara Costa Pinheiro, de 23 anos, optou por desativar sua conta pessoal no Instagram há quase sete meses, buscando aliviar a ansiedade que associou ao uso excessivo da plataforma. Ela reconhece que o consumo constante da vida alheia a levou a um estado de comparação e cobrança que não lhe fazia bem.
“Cheguei ao ponto de me sentir angustiada, especialmente durante o tempo livre, quando consumia conteúdos no Instagram. A pressão de comparação era insuportável”, compartilha. O namorado de Vitória sugeriu que ela testasse passar um tempo sem a rede social, o que resultou em melhorias significativas em sua saúde mental e física. “Desacelerei, mudei minha rotina e priorizei meu bem-estar”, destaca.
Após um mês longe do Instagram, Vitória e seu namorado começaram a sair sem celular, promovendo interações mais autênticas. “Implementamos uma regra: só pegamos os celulares na hora de pagar a conta”, conta.
A psicóloga Renata Mota, que também faz parte do Laboratório Otium, observa que a ansiedade é um fenômeno que pode se manifestar de diferentes formas. Ela alerta que a desconexão digital pode ser tanto positiva quanto negativa, dependendo da pessoa e do contexto em que se insere.
Juliette e Vitória, cada uma a seu modo, estão experimentando o que se denomina detox digital – um afastamento voluntário do ambiente digital que pode ser temporário ou planejado. Luiza Ester explica que essa prática é flexível e pode ser moldada conforme as necessidades individuais.
As estratégias para realizar um detox digital são diversas e devem ser adaptadas à realidade de cada um. Renata Mota salienta a importância de estabelecer metas realistas. “É um trabalho diário. Se você se comprometer a usar o celular apenas a partir de um certo horário, tente cumprir essa meta ao máximo”, recomenda.
A desconexão não é uma regra rígida, podendo incluir desde retiros espirituais a experiências cotidianas. No período de festas, Vitória completará sete meses sem Instagram, o que a ajudará a enfrentar as pressões típicas dessa época. “Não me sinto mais sobrecarregada com comparações, foco apenas em mim mesma”, afirma.
Renata Mota enfatiza que não existe um momento ideal para iniciar um detox digital, mas sim a importância de fazer isso por razões pessoais. “Conhecer seus limites e desejos é fundamental. Você pode se preparar antes de se desconectar completamente”, sugere.
Luiza Ester complementa que o final do ano pode ser uma boa oportunidade para essa experiência, seja durante um recesso ou em um feriado tranquilo. Contudo, é necessário estar ciente das possíveis consequências sociais dessa escolha, como a falta de convites para eventos.
Esse detox digital, embora possa aliviar pressões, também pode levar a novas formas de consumo, como compras excessivas. “É essencial refletir sobre o que buscamos ao nos desconectar do digital. O que realmente queremos conectar ao nos afastarmos?”, pondera Luiza.
O verdadeiro desafio do detox digital reside na capacidade de promover o autocuidado enquanto se enfrenta as estruturas que moldam nossa vida cotidiana. Renata Mota conclui que o foco deve estar em priorizar a si mesmo: “Nós devemos ser nossa principal prioridade, não as redes sociais ou as expectativas alheias. O autoconhecimento é a chave para gerenciar nossa relação com o digital e com a vida como um todo.”