O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) parece ter se animado com os resultados da mais recente pesquisa Genial/Quaest. Designado como candidato por seu pai, ele aparece em segundo lugar nas simulações de primeiro turno, à frente de outros candidatos conservadores. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva oscila entre 41% e 34%, o filho “zero um” do ex-presidente Jair Bolsonaro se destaca com índices que variam de 27% a 21%, superando governadores como Ratinho Junior (PSD-PR), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO). Os números dele no segundo turno também são superiores aos do governador de São Paulo.
Entretanto, a euforia entre os apoiadores de Bolsonaro rapidamente enfrenta uma barreira significativa: a alta taxa de rejeição do senador. Entre os eleitores independentes – um grupo que representa 32% do eleitorado e será fundamental em 2026 –, 69% afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro, uma porcentagem que supera a rejeição enfrentada por Jair Bolsonaro (68%) e pelo próprio Lula (64%). No total, 62% do eleitorado geral afirmam que não votariam nele “de jeito nenhum”, um número baixo demais para quem almeja o Palácio do Planalto.
Esses dados se tornam ainda mais significativos ao notar que uma parte considerável do eleitorado ainda não conhece Flávio Bolsonaro. Entre os independentes, 17% afirmam não saber quem ele é. A ciência política indica que candidatos pouco conhecidos tendem a ter baixos índices de rejeição em fases iniciais, pois a maioria do eleitorado ainda não formou uma opinião sobre eles. A rejeição, muitas vezes, está ligada à informação, experiência ou a associações negativas. Quando essa rejeição surge antes da campanha, geralmente não é direcionada à pessoa em si, mas ao que ela representa.
Esse é o dilema enfrentado pelo senador. Flávio não é escolhido por ser quem é, mas por ser filho de quem é. Sua falta de uma trajetória executiva significativa, a ausência de liderança em reformas relevantes no Senado e a falta de uma identidade política própria o tornam um candidato que, em circunstâncias normais, geraria pouco envolvimento – sem entusiasmo ou rejeição. Contudo, Flávio não está concorrendo como um indivíduo; ele é um herdeiro. O sobrenome Bolsonaro serve, simultaneamente, como um ativo e um passivo.
Por um lado, proporciona um reconhecimento imediato e transfere parte do capital político do ex-presidente. Para uma parte do eleitorado conservador, Flávio é visto como o representante da família indicado pelo patriarca. Isso explica por que ele lidera em relação a outros candidatos da direita: não por méritos próprios, mas por uma delegação simbólica. Por outro lado, o mesmo sobrenome traz um fardo difícil de ignorar. Qualquer membro da família Bolsonaro em uma corrida presidencial carrega uma elevada rejeição estrutural. Embora essa rejeição seja atribuída a Flávio, na prática, ela recai sobre o legado de Jair. O eleitor rejeita a conotação que o sobrenome passou a ter: ruptura institucional, desrespeito pelas normas democráticas, flertes frequentes com o golpismo e ataques às instituições republicanas.
O senador tenta se posicionar como um “Bolsonaro moderado”, buscando demonstrar que não ofende adversários, não utiliza uma retórica radical e não segue o comportamento do pai. Esse esforço é compreensível, mas ineficaz. O sobrenome Bolsonaro não é neutro. Carrega um peso político significativo, associado a um histórico de golpismo que resultou na inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Esse estigma não se dissipa com meros gestos retóricos.
Tudo isso ajuda a entender por que a presença de Flávio Bolsonaro tende a confundir, em vez de fortalecer, a direita brasileira. As pesquisas indicam que, ao carregar esse sobrenome, ele enfrenta enormes dificuldades para vencer um segundo turno, mesmo diante da possibilidade de um eventual Lula 4, um cenário que seria desastroso para o País.
A insistência em manter o bolsonarismo como núcleo central da direita torna-se, assim, um obstáculo à reorganização de um espaço político que poderia oferecer ao eleitorado uma alternativa democrática, republicana e responsável. A direita que se compromete com o jogo democrático e propõe governar – e não destruir – sai enfraquecida sempre que o debate é dominado pelo peso do sobrenome Bolsonaro. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)