A mais recente fase da Operação Sem Desconto, realizada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18) com o objetivo de investigar irregularidades em aposentadorias, alcançou suspeitos que foram identificados após a coleta de evidências em abril, relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, o principal operador do esquema.
Nesta ação, 24 alvos foram submetidos a medidas como prisão preventiva, busca e apreensão, e monitoramento por tornozeleira eletrônica. Entre os investigados estão um senador da República, a proprietária de uma agência de publicidade que trabalhou em campanhas do PT e um ex-diretor do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que é suspeito de envolvimento em fraudes desde a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Após a revelação das fraudes em abril, a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) estimaram que os desvios em aposentadorias e pensões, entre 2019 e 2024, podem totalizar R$ 6,3 bilhões, prejudicando milhares de idosos.
A seguir, apresentamos detalhes sobre os principais investigados pela PF nesta nova etapa da operação, incluindo as medidas que enfrentaram e as suspeitas que pesam sobre eles.
**Núcleo Político**
**Senador Weverton Rocha: busca e apreensão**
A PF considera que o senador Weverton Rocha (PDT-MA) ocupava uma “posição de liderança política e um possível comando dentro da organização criminosa” criada por Careca do INSS. De acordo com as investigações, o senador teria recebido dinheiro desviado de aposentadorias “por meio de intermediários, incluindo alguns de seus assessores”, além de manter laços estreitos com outros implicados.
“Como exemplo, foi encontrado, em comunicações entre […] funcionários de Antônio [Careca], um arquivo Excel intitulado ‘GRUPO SENADOR WEVERTON’, que reforça essa hipótese. O enriquecimento de Antônio foi, portanto, possibilitado por apoio político”, afirma a PF.
Weverton foi alvo de um mandado de busca e apreensão autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma declaração posterior à operação, o senador expressou sua confiança nas instituições e no Estado Democrático de Direito, afirmando que a decisão da Corte é clara ao indicar a falta de provas que o vinculem a atividades ilegais.
Embora a PF tenha solicitado a prisão preventiva do senador, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se opôs, argumentando que “até o momento, não foi demonstrado um vínculo direto entre o parlamentar e a execução das condutas ilícitas, nem o recebimento de valores irregulares”.
**Gustavo Marques Gaspar – prisão preventiva**
Acusado de fazer parte do núcleo político-institucional do esquema criminoso, Gustavo Gaspar foi “nomeado assistente parlamentar sênior na liderança do PDT pelo senador Weverton Rocha, que era o líder da bancada na época” e é visto como seu braço direito. A PF revelou que ele mantinha uma relação “próxima e intensa” com um funcionário de Careca do INSS que realizava os pagamentos ilegais. Mensagens indicam que esse funcionário, chamado Rubens, teria entregado a Gustavo R$ 40 mil em dinheiro. Foram descobertas planilhas que registram a movimentação financeira de associações e empresas ligadas a Careca, além de pagamentos a pessoas físicas e jurídicas. Um dos registros de propina inclui um pagamento de R$ 100 mil a “Gasparzinho”, conforme a decisão de Mendonça.
**Adroaldo da Cunha Portal – prisão domiciliar**
Adroaldo Portal foi assessor do senador Weverton de 2019 a 2023 e, de maio de 2023 até recentemente, atuou como secretário do Regime Geral de Previdência Social no Ministério da Previdência Social. Até a quinta-feira (18), ele ocupava o cargo de secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, mas foi afastado pela decisão do STF e, posteriormente, exonerado. A PF detectou movimentações financeiras suspeitas envolvendo Adroaldo e seu filho Eduardo, que é assessor parlamentar no gabinete do senador. “Entre 23 de outubro de 2023 e 29 de janeiro de 2024, houve créditos, por meio de depósitos em espécie, na conta de Adroaldo, totalizando R$ 249.900”, informou a polícia. O ministro André Mendonça optou pela prisão domiciliar de Adroaldo, considerando que ele é “pessoa com deficiência física que requer cuidados especiais e contínuos”.
**Roberta Moreira Luchsinger – busca e apreensão e tornozeleira eletrônica**
A empresária Roberta Luchsinger é identificada como parte do núcleo político do esquema, pois tem “acesso a estruturas de poder que podem influenciar decisões políticas”. Ela nega qualquer irregularidade. A PF a considera “essencial para a ocultação de patrimônio” e para lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, Roberta teria recebido dinheiro de Careca do INSS com base em um contrato de consultoria fictício. Foram identificados cinco pagamentos totalizando R$ 1,5 milhão da empresa Brasília Consultoria Empresarial S/A, de Careca, para a empresa RL Consultoria e Intermediações Ltda., de Roberta. Mensagens entre ela e Careca indicam que discutiam as investigações. “E Antônio, some com esses telefones. Joga fora”, ela teria dito. “Roberta é formalmente sócia e representante de uma empresa que recebeu valores oriundos de cobranças indevidas realizadas pelas associações investigadas e emitiu notas fiscais sem lastro econômico real”, revela a apuração.
**Núcleo Administrativo**
**Romeu Carvalho Antunes – prisão preventiva**
Filho de Careca do INSS, Romeu Antunes é suspeito de ter assumido o controle do esquema após a divulgação das investigações em 23 de abril deste ano. Segundo a PF, Romeu passou a gerenciar empresas que movimentavam dinheiro ilícito, como a World Cannabis, e conduzia negociações no exterior, incluindo operações em Portugal, onde o esquema teria ramificações.
**Tiago Schettini Batista – prisão preventiva**
A PF afirma que Tiago Schettini tinha um papel tão central quanto o de Careca, embora de forma mais discreta. Ele tomava decisões estruturais no esquema e participava da lavagem de dinheiro utilizando empresas formalmente regulares. Mensagens encontradas reforçam as suspeitas contra ele, inclusive uma em que Tiago menciona que “os caras estão me enchendo o raio do ovo para pagar isso agora”, indicando sua responsabilidade direta por compromissos financeiros da organização.
**Núcleo de Servidores**
**Eric Douglas Martins Fidelis – prisão preventiva**
Filho de um ex-diretor do INSS, Eric Fidelis foi mencionado em mensagens de outros investigados ligados a Careca do INSS como destinatário de dinheiro desviado e filho de “alguém do INSS”. Seu pai, André Fidelis, ex-diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do INSS, foi preso na fase anterior da Operação Sem Desconto, em 13 de novembro deste ano. De acordo com a PF, Eric recebia propina sob a forma de honorários advocatícios, com repasses que totalizavam R$ 2.222.029,67, evidenciando a intensa movimentação financeira entre o grupo e o escritório de Eric.
**Alexandre Guimarães – prisão preventiva**
A investigação revela que Alexandre Guimarães foi diretor de Governança, Planejamento e Inovação do INSS de maio de 2021 a abril de 2023, durante o governo de Jair Bolsonaro. Em novembro de 2022, ele abriu a empresa Vênus Consultoria e Assessoria Empresarial S/A, que tinha o mesmo contador da Prospect Consultoria, utilizada para pagar Eric Fidelis, e mantinha relações comerciais com a Brasília Consultoria, outra empresa de Careca envolvida no esquema. Segundo a PF, o nome de Guimarães é frequentemente mencionado em mensagens de outros investigados como alguém de extrema confiança de Careca. “Ele não é apenas um colaborador ocasional, mas um indivíduo com funções estratégicas, atuando tanto na expansão de negócios quanto na proteção institucional”, aponta a investigação.
**Braço Transnacional**
**Danielle Miranda Fonteles – busca e apreensão e tornozeleira eletrônica**
Proprietária da agência de publicidade Pepper, que trabalhou em campanhas do PT, como a de Dilma Rousseff em 2010 e a de Fernando Pimentel em Minas, Danielle Fonteles é considerada o elo do esquema em Portugal, segundo a PF. A investigação aponta que Careca do INSS transferiu a ela R$ 13,1 milhões. Para dar aparência de legalidade a essas transações, uma compra de imóvel na Bahia foi simulada, mas não se concretizou. No início deste ano, Careca realizou “operações de câmbio para a aquisição de um imóvel de alto padrão em Portugal, com a intermediação de Danielle Fonteles, registrando como comprador seu filho Romeu”. Danielle também abriu empresas suspeitas em Portugal, como a Candango Consulting Ltda., que tinha o filho de Careca como gerente. “As condutas atribuídas à Danielle indicam que ela desempenha um papel sofisticado na lavagem de capital de Antônio, atuando em diversas frentes: financeira, empresarial, imobiliária e internacional. […] Ela é considerada por Antônio Camilo como sua ‘sócia em Portugal'”, destacou Mendonça.