O uso de um único comprimido que combina dois ou mais medicamentos para hipertensão pode auxiliar pacientes a gerenciarem a pressão arterial de forma mais eficaz, além de diminuir as chances de infarto e derrame, de acordo com uma nova diretriz científica divulgada nesta segunda-feira (15) pela American Heart Association. O documento ressalta que essa abordagem favorece a adesão ao tratamento e está ligada a uma redução nos eventos cardiovasculares, embora ainda sejam necessárias mais pesquisas robustas em populações de maior risco.
E NO BRASIL? Há 15 anos, opções de comprimidos combinados para o controle da pressão arterial estão disponíveis na rede privada no Brasil, e sua utilização tem sido cada vez mais apoiada por organizações médicas internacionais. No entanto, essa realidade ainda não se concretizou no Sistema Único de Saúde (SUS).
Menos medicamentos, mais controle da pressão
Pesquisadores da Universidade de Utah, sob a liderança do farmacêutico e professor Jordan B. King, compilaram evidências clínicas que demonstram que a maioria dos pacientes hipertensos necessita de dois ou mais fármacos para alcançar a meta de pressão arterial abaixo de 130 por 80 mmHg. O grupo defende que iniciar o tratamento com uma combinação em dose única pode evitar os atrasos comuns do modelo tradicional, que geralmente começa com um único medicamento e realiza ajustes gradativos. “Se a utilização de comprimidos combinados fosse a norma, e não a exceção, haveria um avanço significativo no controle da pressão arterial na população”, afirmam os pesquisadores. O posicionamento foi publicado na revista científica “Hypertension”.
Menor risco de infarto e AVC
Pesquisas observacionais que monitoraram pacientes por períodos de um a cinco anos indicam que a utilização de comprimidos combinados está associada a uma diminuição de 15% a 30% no risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC, internações devido a insuficiência cardíaca e óbito, quando comparados ao uso dos mesmos medicamentos em comprimidos separados. Os pesquisadores destacam que esse benefício está principalmente relacionado à maior adesão ao tratamento: quanto menor o número de comprimidos diários, maior a probabilidade de o paciente seguir a terapia corretamente.
Diferença entre “comprimido combinado” e “polipílula”
O documento deixa claro que há uma distinção entre os comprimidos combinados para hipertensão e as chamadas polipílulas. Enquanto os primeiros são compostos exclusivamente por medicamentos que visam reduzir a pressão, as polipílulas incorporam esses fármacos juntamente com estatinas ou aspirina, visando uma prevenção cardiovascular mais abrangente.
Barreiras ainda limitam a adoção
Apesar das vantagens, o uso dessas combinações ainda enfrenta limitações. Dentre os principais obstáculos estão: o custo e a cobertura dos planos de saúde, que frequentemente exigem prescrições separadas; a resistência de alguns médicos, receosos de perder flexibilidade para ajustes de dosagem; e a escassez de opções comerciais, especialmente para combinações que incluem três ou quatro medicamentos. Os pesquisadores sugerem que a ampliação do acesso poderia promover uma redução nos custos a longo prazo e aliviar a carga sobre o sistema de saúde.
Comprimido único ainda não disponível no SUS
O cardiologista Luiz Aparecido Bortolotto, do InCor, que já participou da Câmara Técnica do PCDT de Hipertensão Arterial do Ministério da Saúde, observa que a tendência de comprimidos únicos para o tratamento da hipertensão é cada vez mais reconhecida nas diretrizes internacionais, mas, infelizmente, esse tipo de medicação ainda não está disponível no SUS. “Em diversos países onde essas combinações são oferecidas, o controle da pressão arterial é significativamente melhorado, com uma avaliação positiva de custo-benefício. No Brasil, temos combinações de dois medicamentos há cerca de 15 anos, mas, lamentavelmente, ainda não há opções no SUS, apesar de ser uma demanda de todas as sociedades médicas que atuam na área de hipertensão”, afirma.
Combinações duplas controlam a pressão em 60% dos hipertensos; as triplas, em 90%
De acordo com Bortolotto, as combinações duplas de medicamentos têm potencial para atingir a meta de controle da pressão abaixo de 14×9 mmHg (milímetros de mercúrio) em 60% dos pacientes hipertensos. Essas combinações podem incluir:
– Bloqueadores do Sistema Renina-Angiotensina (como Losartana ou Enalapril) com diuréticos (como Hidroclorotiazida) ou com bloqueadores de canais de cálcio (como Anlodipina).
Exemplos de combinações duplas incluem:
– Lotar (Losartana e Anlodipina)
– Acertanlo (Anlodipina e Perindopril)
– Diovam HCT (Hidroclorotiazida e Valsartana)
Entretanto, como a meta ideal de pressão é abaixo de 13×8 mmHg, a combinação de três classes de medicamentos se mostra mais eficaz, podendo controlar a pressão em 90% dos hipertensos. A combinação tripla pode incluir:
– Bloqueadores do sistema renina-angiotensina (como Losartana ou Enalapril), diuréticos (como Hidroclorotiazida) e bloqueadores de canais de cálcio (como Anlodipina).
Exemplos de combinações triplas incluem:
– Exforge (Valsartana, Anlodipino e Hidroclorotiazida)
– Triplixam (Perindopril arginina, Indapamida e Besilato de Anlodipino)
– Benicar triplo (Olmesartana medoxomila, Hidroclorotiazida e Anlodipino)
Classes de medicamentos para hipertensão
Atualmente, as combinações de comprimidos únicos disponíveis na rede privada do Brasil incluem até três classes de medicamentos, que são vendidas a preços mais acessíveis, mas separadamente. As classes incluem:
– Bloqueadores do sistema renina-angiotensina: Losartana, Olmesartana, Valsartana, Candesartana, Enalapril, Perindopril, Lisinopril, Ramipril.
– Bloqueadores de canais de cálcio: Anlodipina.
– Diuréticos: Hidroclorotiazida, Indapamida, Clortalidona.
Bortolotto também destaca que a indústria farmacêutica, assim como as associações médicas, está disposta a dialogar com o Ministério da Saúde, e esse pedido tem sido feito desde o surgimento das combinações, há 15 anos. “A adoção de comprimidos combinados poderia facilitar o controle da pressão arterial e reduzir o risco de complicações. Em vez de precisar tomar cinco comprimidos, o paciente poderia ingerir um único medicamento com efeito muito mais rápido. Embora as autoridades aleguem que o número de usuários seria muito elevado para viabilizar a distribuição em larga escala no SUS, estamos empenhados em buscar soluções, especialmente para os pacientes de maior risco”, conclui o médico.
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