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EUA reavaliam a classificação da maconha, abrindo portas para pesquisas médicas: a eficácia da cannabis medicinal é comprovada? O que revelam as análises científicas

1 de 3 Maconha medicinal: até julho do ano passado, cerca de 672 mil pacientes usaram produtos à base de Cannabis no Brasil — Foto: Pixabay

Na última quinta-feira (18), o presidente americano, Donald Trump, assinou uma ordem que sugere a flexibilização das normas federais em relação à maconha. Essa alteração pode reclassificar a maconha como uma substância menos nociva, posicionando-a ao lado de analgésicos comumente utilizados. Atualmente, a maconha é classificada federalmente da mesma forma que a heroína e o ecstasy, ambas consideradas drogas com alto potencial de dependência e sem aceitação médica reconhecida.

As autoridades destacam que a intenção é expandir as investigações médicas sobre a planta e seus derivados, visando avaliar tanto os riscos quanto as possíveis aplicações terapêuticas. O uso da cannabis para fins medicinais tem se espalhado globalmente nos últimos anos, impulsionado por mudanças nas legislações, relatos de pacientes e a expectativa de uma alternativa “natural” para o tratamento de dor, ansiedade, insônia e uma variedade de outros sintomas.

No Brasil, essa busca por comprovações científicas ganhou um novo impulso em novembro de 2025, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) a cultivar e pesquisar a cannabis no país, com foco exclusivo em fins científicos e sob rigorosos controles.

Entretanto, ao transitar do campo da experiência pessoal para o da medicina baseada em evidências, as limitações ainda são evidentes. Uma abrangente revisão científica divulgada no Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das publicações médicas mais renomadas, analisou 124 estudos realizados entre 2010 e 2025 — incluindo ensaios clínicos, revisões sistemáticas, meta-análises e diretrizes — e oferece um panorama atualizado sobre o que a ciência realmente compreende acerca do uso terapêutico da cannabis e seus derivados.

A conclusão principal é clara: há evidências científicas consistentes para algumas indicações específicas, geralmente envolvendo canabinoides farmacêuticos padronizados. Para a maioria das aplicações populares na prática clínica e na cultura geral, os dados ainda são insuficientes ou inconsistentes, indicando a necessidade de continuidade nas pesquisas sobre o assunto.

Indicações bem definidas
De acordo com o psiquiatra Vinicius Barbosa, coordenador do Núcleo de Cannabis Medicinal do Hospital Sírio-Libanês e membro do Conselho Diretor da Associação Médica Brasileira de Endocanabinologia, o maior valor do estudo é reposicionar a questão no âmbito da medicina baseada em evidências. Ele observou que a revisão não altera substancialmente as diretrizes clínicas, mas organiza criticamente o conhecimento existente, ajudando a distinguir entre dados sólidos e expectativas exageradas. A mensagem, segundo ele, é de cautela: nem um entusiasmo sem fundamento, nem uma demonização.

A análise revela que os benefícios mais bem documentados ocorrem em contextos muito específicos. Entre eles estão algumas formas raras de epilepsia infantil, como as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut, nas quais o canabidiol purificado demonstrou uma redução significativa na frequência das crises. Há também evidências que apoiam o uso de canabinoides sintéticos para o controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, além de estimular o apetite em pacientes com HIV/AIDS, embora os efeitos sejam considerados modestos.

“Essas são situações em que há produtos padronizados, dosagens conhecidas, estudos clínicos bem elaborados e aprovação regulatória”, explica o neurocirurgião Helder Picarelli, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que possui pós-doutorado pela Universidade Federal de São Paulo. Fora dessas circunstâncias, a maioria das indicações é suportada por estudos observacionais, séries de casos ou ensaios pequenos, que apresentam limitações metodológicas significativas.

Barbosa ressalta que, mesmo quando o uso é permitido, isso não implica em uma comprovação abrangente de eficácia. Grande parte do que é observado atualmente na prática clínica ainda se baseia em prescrições off-label, para condições que carecem de ensaios clínicos robustos, com resultados claros, acompanhamento prolongado e uma análise cuidadosa de risco-benefício.

Cannabis medicinal não é sinônimo de medicamento
Um dos aspectos fundamentais do artigo é a diferenciação entre canabinoides de grau farmacêutico e produtos comercializados como “cannabis medicinal”. Apesar de frequentemente serem tratados como equivalentes no debate público, eles não são a mesma coisa do ponto de vista médico.

Medicamentos como canabidiol purificado, dronabinol e nabilona passam por rigorosos controles de qualidade, têm composições definidas, dosagens previsíveis e foram testados em ensaios clínicos. Por outro lado, muitos produtos vendidos como cannabis medicinal — óleos, extratos e flores — podem apresentar grande variação nas concentrações de tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), além de falhas de padronização e riscos de contaminação.

“Do ponto de vista clínico, são categorias completamente distintas, mesmo que confundidas socialmente”, esclarece a médica Juliana Bogado, especialista em canabidiol e diretora-geral da EndoPure Academy. Ela enfatiza que os resultados obtidos com canabinoides farmacêuticos não podem ser automaticamente aplicados a produtos que não possuem controle rigoroso de dosagem, pureza e estabilidade.

Picarelli acrescenta que, em muitos países, esses produtos têm uma potência similar à da cannabis recreativa, aumentando os riscos e gerando uma falsa sensação de segurança associada ao rótulo “medicinal”.

A popularidade da cannabis medicinal sem evidência robusta
Apesar da ausência de evidências consistentes, a dor crônica, a insônia e a ansiedade estão entre os principais motivos que levam os pacientes a buscar a cannabis medicinal. O estudo revela que, nesses casos, os trabalhos disponíveis são pequenos, de curta duração e com resultados subjetivos, o que dificulta a formação de conclusões sólidas.

Para Barbosa, esse é um dos pontos mais delicados do debate. O relato do paciente é válido, mas não substitui a evidência científica. Nos casos de dor, sono e ansiedade, o efeito placebo pode ser elevado, e a resposta individual pode ser confundida com um benefício terapêutico duradouro, mesmo na ausência de um impacto claro sobre a condição subjacente.

A revisão do JAMA sublinha que a falta de evidências robustas não deve ser interpretada como prova de ineficácia, mas sim como uma indicação de que ainda não há dados confiáveis para recomendações amplas e seguras.

Riscos reais, especialmente com altos níveis de THC
Embora os benefícios sejam limitados, os riscos associados ao uso da cannabis — especialmente de produtos com elevado teor de THC — estão bem documentados. A revisão relaciona o consumo de cannabis de alta potência a um maior risco de sintomas psicóticos, como:

– ansiedade,
– dependência,
– eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), especialmente em usuários frequentes.

Estima-se que cerca de 29% das pessoas que utilizam cannabis com fins medicinais atendem aos critérios para transtorno por uso de cannabis. “O risco tende a ser subestimado quando se generaliza o termo ‘cannabis’”, afirma Bogado.

Produtos com alto teor de THC, especialmente quando inalados, não podem ser comparados a formulações orais que são padronizadas e apresentam menor potencial de efeitos adversos.

Um campo em evolução
Para os especialistas, o momento atual é de avaliação crítica e amadurecimento científico. A cannabis não se encaixa no modelo tradicional de medicamento: trata-se de uma planta com diversos compostos ativos, diferentes formas de uso e efeitos que variam conforme a dosagem, composição e perfil do paciente.

“O entusiasmo inicial está cedendo espaço a uma abordagem mais precisa e responsável”, conclui Vinicius Barbosa. Isso não significa rejeitar os canabinoides, mas sim reconhecê-los dentro de limites claros, com indicações específicas, monitoramento clínico e uma avaliação rigorosa de risco-benefício.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade