Uma emocionante carta de Natal, redigida por Gerson de Melo Machado, um jovem que faleceu após invadir o recinto de uma leoa em um zoológico em João Pessoa (PB), foi tornada pública na terça-feira, 16, pela conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson, conhecido como “Vaqueirinho de Mangabeira”, durante sua infância até os 18 anos. O jovem, que lutava contra a esquizofrenia, faleceu aos 19 anos.
Verônica compartilhou que a professora mencionada na carta havia postado uma imagem do texto em um grupo ao qual pertence. “É a última mensagem escrita por Gerson no seu último Natal como adolescente”, esclareceu. Na ocasião, os internos do Centro de Atendimento ao Adolescente (CEA) foram incentivados a expressar seus desejos por meio de uma carta.
“Gerson não pediu por bens materiais ou por algo inatingível; no entanto, a sua vida parece ter sido marcada por impossibilidades. Ler essa carta, repleta de significados e mensagens, foi doloroso. Espero que aqueles que colocaram Gerson na ‘cova dos leões’ leiam suas palavras e consigam ter paz”, declarou Verônica.
No dia 30 de novembro, Gerson, que sonhava em domar leões na África, escalou uma parede de seis metros e atravessou grades de segurança até chegar a uma árvore, invadindo o recinto dos leões no zoológico. Infelizmente, ele foi atacado por uma leoa e não sobreviveu aos ferimentos. O zoológico, onde ocorreu o incidente, permanecerá fechado até sua reabertura na quinta-feira, 18.
Laudos periciais, determinados pela Justiça, indicaram que, além de sua esquizofrenia, o jovem apresentava sintomas psicóticos ativos. A mãe e os avós de Gerson também enfrentaram diagnósticos semelhantes. Sua mãe, que perdeu a guarda dele e de seus outros quatro filhos, que foram adotados, não constava no registro de paternidade.
“Ela (a mãe) está viva, mas não tinha condições de cuidar dele, pois sua esquizofrenia é grave. Ela não exerce mais a maternidade, pois foi destituída da guarda”, relatou a conselheira ao Estadão. Segundo Verônica, quando Gerson era criança, uma possibilidade de adoção foi frustrada.
“A instituição onde ele estava durante a infância, após a destituição da mãe, afirmou que ele não foi adotado devido ao laudo de esquizofrenia. Contudo, crianças não deveriam ter esse diagnóstico. Advertimos a coordenadora, pois ficou evidente que os possíveis adotantes foram informados da condição de Gerson, e assim ele não teve a mesma oportunidade que seus irmãos”, explicou Verônica.
Gerson nasceu em Mangabeira, o bairro mais populoso da capital paraibana. De acordo com registros e pessoas próximas, ele passou por diversos tratamentos psiquiátricos entre os 7 e 18 anos. Também foi apreendido e viveu em instituições de ressocialização para adolescentes, acumulando 16 passagens policiais por diferentes infrações. Na semana que antecedeu sua morte, após ser liberado de duas prisões no mesmo dia, a Justiça havia reconhecido sua situação e determinado um tratamento psiquiátrico urgente, além de solicitar a liberação de sua aposentadoria por incapacidade.
“Desejos do coração”
Eu almejo uma grande felicidade que nunca experimentei, mas tenho fé de que, um dia, poderei tê-la, pois Deus é maior. Eu gostaria de receber a visita da minha mãe para sentir seu carinho e amor. Meu desejo é conseguir um emprego como policial florestal ou veterinário.
Sou grato por estar sob proteção e por encontrar apoio na professora Margarete, nos agentes, no professor Tony, nos diretores Luciana e Marcos da Paz, no advogado e na juíza Antonieta. Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo próspero.
Gerson de Melo Machado