BRASÍLIA – A situação financeira delicada dos Correios está afetando diretamente o plano de saúde da empresa, conhecido como Postal Saúde. Beneficiários relatam o cancelamento de consultas, o descredenciamento de hospitais e clínicas, além de dificuldades para obter autorizações para exames e tratamentos. Conforme o balanço mais recente, a dívida da estatal com o plano subiu para R$ 740 milhões em setembro, mais que o dobro da quantia de R$ 348 milhões registrada em dezembro de 2024.
A Associação dos Profissionais dos Correios (Adcap), que representa cerca de 20 mil trabalhadores e aposentados, denuncia uma crise generalizada no atendimento, resultado da falta de pagamento da empresa ao plano. “A dívida ultrapassa R$ 700 milhões, e isso gerou um colapso no atendimento. A situação é extremamente grave, com relatos de tratamentos oncológicos sendo interrompidos”, afirmou Roberval Borges, presidente da Adcap.
Em resposta, os Correios informaram em nota que, como mantenedores do Postal Saúde, estão colaborando com a operadora para assegurar a continuidade dos serviços aos beneficiários. A Postal Saúde, no entanto, não se manifestou sobre a situação.
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) declarou que o plano está em uma condição “regular de monitoramento”, tanto do ponto de vista assistencial quanto econômico-financeiro. Contudo, a ANS também revelou que a operadora está sob vigilância desde junho de 2024 devido a seu desempenho insatisfatório e ao aumento de reclamações.
Há expectativas de que um empréstimo de R$ 12 bilhões, atualmente sob análise do Tesouro Nacional, seja utilizado para regularizar a dívida e restaurar as operações do plano.
Dados da ANS mostram que o Índice Geral de Reclamações (IGR) subiu de 49,2 pontos em fevereiro para 111,45 pontos em julho, com uma leve queda para 98,6 pontos em novembro, o dado mais recente disponível. Para comparação, em novembro, o IGR para todos os planos de saúde do setor era de 48 pontos, enquanto para planos de grande porte, como o Postal Saúde, era de 51,1 pontos, posicionando-o como o quinto plano com mais reclamações.
Apesar de uma melhora temporária, a ANS indicou que os resultados positivos não foram sustentados pelo plano. No site Reclame Aqui, pacientes relatam problemas para seguir com tratamentos de câncer, falta de retorno do plano, descredenciamento de hospitais e cancelamentos de consultas.
Nesta terça-feira, um profissional de saúde expressou sua frustração, afirmando que aguarda há cinco meses o pagamento por serviços prestados ao plano. “É um desrespeito total. Estou praticamente implorando para que o pagamento seja realizado. Já enviei e-mails e tentei contato por WhatsApp e telefone, mas apenas recebo respostas automáticas sem previsão de pagamento”, comentou.
Uma paciente relatou ter sido obrigada a pagar por uma consulta com um psiquiatra em Osasco, na Grande São Paulo, devido à falta de pagamento do plano à clínica. “Tive que desembolsar R$ 150 pela consulta, mesmo estando descontada pela Postal Saúde. O atendimento é inexistente”, disse.
A clínica Salutares não respondeu ao contato feito.
Fontes próximas à estatal informaram que os Correios planejam usar o empréstimo de R$ 12 bilhões, obtido de cinco bancos, para quitar a dívida e normalizar os atendimentos. Na última terça-feira, a empresa comunicou aos seus funcionários que enviará a proposta ao Tesouro Nacional, que poderá atuar como avalista do empréstimo.
“Os Correios estão revisando uma nova proposta de crédito para ser apresentada ao Tesouro Nacional. Uma terceira rodada de negociações foi necessária, pois as condições iniciais apresentadas pelo mercado, especialmente em relação à taxa de juros, estavam além do que o Tesouro considera aceitável para operações com aval da União”, revelou a estatal.
Diante dessa crise, os Correios também estão em negociações com seus colaboradores, mediadas pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), para firmar um acordo coletivo e evitar uma greve. Uma nova audiência está marcada para a próxima terça-feira, 23. A proposta da empresa não inclui reajuste salarial neste ano.
Entre janeiro e setembro deste ano, os Correios reportaram um prejuízo acumulado de R$ 6,05 bilhões. O empréstimo de R$ 12 bilhões contará com a participação do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Bradesco, com R$ 3 bilhões cada, e do Itaú e Santander, com R$ 1,5 bilhão cada. Segundo fontes, os juros estão previstos para ficar abaixo de 120% do CDI, sinalizando uma provável autorização por parte do Tesouro, que deve ocorrer ainda esta semana.