Um casal perdeu a vida ao tentar impedir um dos atiradores durante o ataque na praia de Bondi, em Sydney, na Austrália. Eles estão entre as 15 vítimas fatais do incidente, que ocorreu no último domingo.
Boris Gurman, de 69 anos, e sua esposa Sofia, de 61 anos, tentaram intervir para proteger outras pessoas, mas não conseguiram desarmar o atirador e foram mortos. A família do casal confirmou as mortes e destacou a ação heroica em um comunicado nesta terça-feira (16).
O ato corajoso do casal foi capturado por uma câmera de um carro de uma moradora de Sydney, que compartilhou o vídeo em uma rede social chinesa. “Heróis civis como eles não devem ser esquecidos”, comentou a mulher na postagem.
As imagens mostram Boris, usando uma camisa roxa, tentando derrubar o atirador enquanto ele saía do carro. Contudo, ele não conseguiu tomar a arma do agressor e foi baleado, junto com sua esposa. (Veja o vídeo acima)
“Estamos devastados pela perda repentina e sem sentido de nossos queridos Boris e Sofia Gurman. (…) Nos últimos dias, vimos imagens que mostram Boris, ao lado de Sofia, tentando bravamente desarmar um agressor para proteger os outros. Embora nada possa diminuir a dor de perder Boris e Sofia, sentimos um enorme orgulho pela bravura e altruísmo deles. Isso é o que eles eram — pessoas que, por instinto, tentavam ajudar os outros”, declarou a família em um comunicado enviado ao jornal australiano “The Sunday Morning Herald”.
Boris e Sofia foram as primeiras vítimas do ataque e estão sendo homenageados como heróis na Austrália por sua ação altruísta. Mais tarde, um outro presente no local conseguiu desarmar o atirador, prevenindo mais ferimentos. Ahmed al Ahmed, que também é considerado um herói, está se recuperando no hospital e foi visitado por autoridades australianas.
Nesta terça-feira (16), representantes das Filipinas e da Índia anunciaram que estão colaborando com a investigação aberta pela Austrália para apurar detalhes sobre os atiradores. A polícia australiana revelou em uma coletiva que os responsáveis pelo ataque tinham uma ideologia extremista e se inspiraram no Estado Islâmico (EI) — um grupo jihadista que reivindica a autoria de diversos ataques terroristas globalmente. O veículo dos suspeitos tinha duas bandeiras do EI feitas à mão. O governo australiano, no entanto, acredita que os atiradores agiram de forma independente.
Durante o ataque, houve confronto entre os atiradores e a polícia, resultando na morte do mais velho pelos agentes. O mais jovem foi levado ao hospital em estado crítico, mas acordou do coma nesta terça-feira.
O Departamento de Saúde de Nova Gales do Sul informou que 22 vítimas do ataque ainda estão internadas, com nove em condição crítica, embora seis estejam estáveis.
O ataque ocorreu quando dois homens, pai e filho, estacionaram seu carro perto da praia de Bondi e abriram fogo contra pessoas que participavam de uma celebração do primeiro dia do Hanukkah, em um dos pontos turísticos mais populares de Sydney. O pai, um homem de 50 anos, tinha autorização para portar armas e faleceu em confronto com as autoridades. O filho, de 24, foi detido com ferimentos graves, mas seu estado é considerado estável.
As idades das vítimas variam de 10 a 87 anos. A mais jovem, uma menina, faleceu no hospital. Entre os mortos, estava o rabino Eli Schlanger, de 41 anos, nascido em Londres, conforme relataram os jornais britânicos The Guardian e BBC News. Um cidadão israelense também perdeu a vida no ataque.
Em uma coletiva de imprensa, o comissário da polícia de Nova Gales do Sul, Mal Lanyon, classificou o evento como um “incidente terrorista”. O Jerusalem Post informou que um de seus colaboradores, Arsen Ostrovsky, chefe do escritório de Sydney do Australia/Israel & Jewish Affairs Council, também ficou ferido.
O Itamaraty afirmou que, até o momento, não há informações sobre vítimas brasileiras. Lanyon declarou que a polícia concluiu que não houve a participação de um terceiro suspeito. Quarenta pessoas foram atendidas em diferentes hospitais de Sydney, incluindo dois policiais.
Ainda durante a coletiva, o primeiro-ministro de Nova Gales do Sul, Chris Minns, afirmou que “o ataque foi planejado para atingir a comunidade judaica de Sydney, no primeiro dia do Hanukkah”. Imagens mostraram um dos atiradores sendo desarmado por um homem após os disparos (veja vídeo abaixo).
“É a cena mais inacreditável que já vi: um homem se aproximando de um atirador que havia disparado contra a comunidade e, sozinho, o desarmando, colocando sua própria vida em risco para salvar a vida de inúmeras outras pessoas”, disse Minns.
O homem que desarmou o atirador foi atingido por dois disparos, um no braço e outro na mão, mas se recupera bem no hospital, segundo um parente, conforme reportado pelo jornal “Guardian”. Ele tem 43 anos e trabalha como vendedor de frutas.
No Reino Unido, a polícia reforçará a segurança em comunidades judaicas após o ataque na Austrália. O Hanukkah, o festival judaico das luzes, começou na noite de domingo, com celebrações programadas para os próximos dias em todo o Reino Unido.
Mike Burgess, diretor-geral da inteligência australiana (ASIO), informou que a agência está investigando a identidade dos atiradores e se existe “alguém na comunidade que tenha intenções semelhantes”. “É importante ressaltar que, neste momento, não temos qualquer indicação disso, mas é algo que está sendo investigado ativamente”, afirmou.
De acordo com ele, o nível de ameaça terrorista na Austrália permanece como “provável”. “Não vejo isso mudando neste estágio. Provável significa que há 50% de chance de um ato terrorista. Infelizmente, vimos esse ato horrível ocorrer hoje à noite na Austrália.”
A polícia australiana também revelou que um “objeto que se acredita ser um artefato explosivo” foi removido de um carro próximo à praia. “Uma série de itens suspeitos localizados nas proximidades está sendo examinada por especialistas, e uma área de exclusão foi estabelecida”, informou a polícia de Nova Gales do Sul em um comunicado divulgado às 21h (horário local).
Casos de ataques a tiros em massa são extremamente raros na Austrália. Um massacre ocorrido em 1996 na cidade de Port Arthur, na Tasmânia — quando um atirador matou 35 pessoas — resultou em uma drástica mudança nas leis sobre armas, tornando muito mais difícil para os australianos adquirirem armamentos.