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Brasileiros recorrem ao ChatGPT como uma forma de suporte emocional

Desde a pré-adolescência, a estudante paulista Carolina Moura Lima, de 25 anos, tem lidado com crises de ansiedade e recentemente encontrou um recurso inusitado para ajudá-la: o ChatGPT, um chatbot com inteligência artificial voltada para a geração de texto. “Não sei exatamente como essa ideia surgiu, mas creio que foi em um momento de desespero. Pensei nele durante uma crise, quando não tinha outras opções”, revela. Carolina já está em tratamento psiquiátrico e faz uso de medicamento controlado. Além disso, ela contava com a orientação de uma psicóloga até agosto, quando teve que interromper as sessões por questões financeiras.

Ela reconhece que o chatbot oferece respostas prontas, muitas vezes genéricas, e afirma que um terapeuta humano continuará sendo sua preferência. No entanto, ela considera que a tecnologia pode ser útil em momentos de crise. “Quando ele me lembra de coisas simples, como ‘faça algo que você ama’ ou ‘anote o que está sentindo’, isso realmente ajuda. Em um ataque de ansiedade, é difícil pensar claramente e lembrar dessas orientações.”

Carolina compartilha que geralmente inicia a conversa descrevendo a situação que, em sua opinião, desencadeou a crise. “Pergunto se é normal eu me sentir assim. No fundo, sei que não é, mas ainda assim preciso de uma validação, de alguém que diga: ‘É aceitável sentir isso. Você está certa.’ Ou que, ao menos, compreenda minha dor. Mesmo sabendo que não é uma pessoa real, ler isso me traz alívio.”

Ela não está sozinha nessa busca por apoio emocional através da inteligência artificial, que ganhou destaque após o lançamento do ChatGPT no final de 2022. Um estudo da Talk Inc, que entrevistou mil brasileiros, revelou que um em cada dez respondentes utiliza ferramentas baseadas em IA como amigos ou conselheiros para discutir e resolver questões pessoais e emocionais.

Especialistas consultados pelo jornal O Estado de S. Paulo alertam que a IA não substitui um terapeuta e expressam preocupações sobre o uso de modelos generativos, como o ChatGPT. Os principais temores envolvem a segurança no compartilhamento de informações pessoais e as possíveis consequências de respostas inadequadas para pessoas vulneráveis. No entanto, eles não rejeitam a IA, sugerindo que, no futuro, ela poderá se tornar uma valiosa aliada.

O uso de chatbots na saúde mental não é uma novidade. O primeiro chatbot, chamado Eliza, foi desenvolvido em 1966 por Joseph Weizenbaum no MIT, simulando uma conversa com um psicoterapeuta. Desde então, novos modelos surgiram, apresentando resultados promissores, embora ainda não sejam suficientes para uma ampla indicação clínica.

O avanço das pesquisas nessa área é encorajado, especialmente considerando a crise global de saúde mental e o subfinanciamento dos serviços de apoio a pacientes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 2% dos orçamentos públicos de saúde são destinados ao bem-estar mental. Os especialistas ressaltam que, embora máquinas como a IA não substituam profissionais como psicólogos e psiquiatras, elas podem servir como ferramentas de apoio.

Nas redes sociais, como X (ex-Twitter) e TikTok, aumentam os relatos de indivíduos que afirmam fazer “terapia” com chatbots. Enquanto alguns tratam o assunto com humor, outros estão seriamente envolvidos, utilizando comandos específicos para direcionar a abordagem terapêutica do ChatGPT.

A psicóloga Talita Fabiano de Carvalho, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), enfatiza que o terapeuta analisa muitos aspectos além do que o paciente expressa. Enquanto o chatbot responde apenas ao que é escrito, o terapeuta observa expressões faciais e o tom de voz do paciente. Ela explica que a psicoterapia não se limita a aplicar técnicas científicas, mas também envolve a interação humana. “Você traz uma situação que está vivenciando, e eu utilizo todo o meu conhecimento e as técnicas que possuo para ajudar. Além disso, sou uma pessoa ouvindo você”, afirma.

“Essa escuta é filtrada por empatia, solidariedade, compaixão e uma percepção que vai além das palavras. Quando você diz ‘estou sentindo isso’, eu compreendo não apenas as palavras, mas também o que está por trás delas, através desse filtro emocional e da percepção que tenho como ser humano”, conclui. Portanto, as consultas a máquinas não podem ser classificadas como terapia, segundo os especialistas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade