A nova geração, que já adotou hábitos como corridas ao amanhecer, meditação e consumo consciente, está transformando também a maneira de celebrar. Os mocktails, que são coquetéis inspirados em clássicos, mas sem a presença de álcool, representam muito mais do que uma simples moda; eles refletem uma mudança significativa nos costumes sociais.
Esse movimento, conhecido como “onda de sobriedade”, tem ganhado destaque em todo o mundo nos últimos anos, e agora também está fazendo ondas no Brasil. A proposta não é evitar festas ou brindes, mas sim abordá-los de uma maneira inovadora.
Maria Fernanda Bastos, mixologista e bartender do bar Ordinário, comenta que os mocktails são bebidas sofisticadas elaboradas sem álcool. “Isso se alinha a uma tendência global voltada para a saúde. A indústria da moda, por exemplo, está cada vez mais atenta ao bem-estar, que é algo que o dinheiro não pode comprar ou reproduzir”, observa.
O psicólogo André Machado acrescenta que o crescente interesse por bebidas não alcoólicas reflete uma preocupação maior com os efeitos do álcool na saúde mental, incluindo questões como ansiedade e depressão.
“Hoje, as pessoas estão priorizando seu bem-estar físico e mental, evitando os riscos associados ao consumo de álcool, como problemas hepáticos e alterações de humor. Pesquisas indicam que 41% dos adultos pretendem reduzir a ingestão de álcool por motivos de saúde mental, especialmente entre os millennials e a geração Z, que valorizam a clareza mental e a energia”, destaca ele.
André também ressalta que o álcool não precisa ser uma presença constante em ambientes sociais, uma vez que já existem alternativas viáveis. “Com menos pressão para beber e uma variedade maior de opções, como coquetéis sem álcool, os encontros se tornam mais inclusivos. No entanto, a principal motivação vem do indivíduo — a busca pela saúde e autocuidado orienta a escolha, enquanto o aspecto social se adapta a essa nova realidade, criando espaços mais acolhedores.”
Os mocktails já existiam, mas agora as pessoas perceberam que não é necessário optar por um refrigerante zero para aproveitar a noite com amigos. Além disso, movimentos como o Dry January e o Sober Curious, junto com a crescente oferta de destilados não alcoólicos que replicam a complexidade dos drinques tradicionais, estão em alta.
As cervejas sem álcool também estão se tornando populares, com opções inovadoras no Brasil. A marca Kiro, por exemplo, oferece bebidas à base de vinagre de maçã, enquanto a Luci apresenta cervejas sem álcool com adição de vitaminas.
Outra tendência em ascensão são as bebidas que utilizam plantas adaptógenas, como jambu, gengibre e valeriana, exemplificadas pelo drink Lucia. Maria Fernanda afirma que esses adaptógenos transformam a bebida em uma experiência funcional e sensorial. Para aqueles que não consomem álcool, essas opções são “substitutas” que oferecem intencionalidade, técnica e narrativa.
“Essas substâncias naturais de origem vegetal ajudam o corpo a lidar com o estresse de forma não invasiva e não específica”, explica. “Elas proporcionam camadas de sabor e complexidade que muitas vezes faltam em coquetéis sem álcool, podendo ser utilizadas em xaropes, infusões, tinturas, shrubs ou fermentações leves.”
Adicionalmente, as bebidas com cannabis têm chamado a atenção no cenário internacional, com vendas globais alcançando US$ 2,04 bilhões em 2023 e uma projeção de crescimento para US$ 117,05 bilhões até 2032, segundo a Fortune Business Insights.
Esses produtos também podem contribuir para a redução de danos, especialmente entre aqueles que enfrentam dificuldades com o consumo de álcool. O psicólogo André Machado observa que essas bebidas podem facilitar a diminuição do consumo. “Comportamentalmente, isso cria uma ‘substituição de hábitos’: as semelhanças visuais e gustativas direcionam as pessoas para opções mais seguras, auxiliando na moderação ou na abstinência gradual.”
“Por outro lado, para alguns — especialmente no início do processo de redução ou em recuperação —, essas bebidas podem atuar como um gatilho emocional: sua semelhança com bebidas alcoólicas (em aparência e aroma) pode despertar respostas de desejo no cérebro, aumentando o risco de recaída ou consumo excessivo”, conclui o especialista.